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PERSPECTIVAS INSPIRADORAS

Relatório Anual 2025

Fundação MAHLE





Fundação MAHLE

Editorial



Prezadas Senhoras e Senhores, Prezados Amigos da MAHLE FOUNDATION,

Este relatório anual celebra diversas conquistas importantes: com o Feinstoff Festival (um festival que celebra as dimensões sutis da experiência humana), comemoramos seis décadas de atividades de fomento da Fundação MAHLE em 2025, na Igreja St Maria, em Stuttgart — uma ocasião que não apenas olha para o passado, mas, sobretudo, para o futuro. E, pela primeira vez, apresentamos o trabalho da Fundação juntamente com nosso parceiro, o INSTITUTO MAHLE no Brasil, em um relatório integrado. O que à primeira vista pode parecer uma inovação organizacional é, na verdade, uma consequência lógica da nossa forma de atuação, que conecta continentes e transcende fronteiras — especialmente no Brasil, onde iniciativas antroposóficas têm alcançado, cada vez mais, amplos setores da sociedade civil.

Apesar de toda a nossa confiança, não seria honesto ignorar os desafios. Encontramo-nos em meio a profundas transformações — escassez de recursos, pressões econômicas e a busca por soluções holísticas e abrangentes caracterizam a realidade cotidiana de muitos atores sociais, da medicina à cultura. É precisamente nesses tempos que se torna evidente o valor de iniciativas que reconhecem o processo de desenvolvimento humano.

Nesse contexto, gostaria de chamar a atenção para um fenômeno que molda o nosso presente: vivemos em um mundo cada vez mais determinado pelo que é mensurável e quantificável. O que corre o risco de se perder é o “sutil” — aquelas dimensões da vida que escapam à medição, mas que são de importância fundamental. Pensem em um momento de encontro genuíno, na atmosfera de um ambiente, na qualidade de um toque. Nada disso pode ser capturado em números, e, ainda assim, reconhecemos imediatamente sua realidade.

Os projetos que apoiamos — seja um centro educacional que promove inclusão por meio da arte, uma iniciativa de preservação de variedades tradicionais de sementes ou uma associação que possibilita encontros religiosos por meio da experiência sensorial — todos cultivam essa dimensão sutil. Eles criam espaços nos quais as pessoas podem realmente se encontrar, nos quais o invisível se torna visível.

Talvez seja precisamente isso que distinguiu a visão de nossos fundadores, Dr. Ernst e Hermann Mahle: eles reconheceram que a criação da Fundação MAHLE dizia respeito a algo que ia além do financiamento de projetos. Tratava-se de moldar o futuro em um sentido amplo — da questão de como desejamos viver enquanto sociedade e de como criamos espaços nos quais o desenvolvimento humano se torna possível.

Nada disso seria possível sem a confiança do Grupo MAHLE. Especialmente em tempos de profundas transformações na indústria automotiva, o Grupo permanece firmemente ao lado da Fundação. Essa confiança expressa uma postura que compreende o sucesso econômico e a responsabilidade social como inseparavelmente conectados.

Agradeço a todos que contribuíram para o sucesso do nosso trabalho: aos colaboradores da Fundação e do INSTITUTO MAHLE, aos coordenadores de projetos, ao círculo consultivo, bem como à diretoria e a todos os colaboradores do Grupo MAHLE.

Desejo-lhes uma leitura inspiradora e espero que possam perceber algo dessa qualidade sutil que distingue nossos projetos — esse espírito de conexão que une pessoas através dos continentes.

Atenciosamente,

Jürgen Schweiß-Ertl Sócio-Diretor Executivo



Saudações

Prezadas senhoras e senhores,

Recentemente deparei-me com uma frase atribuída ao laureado sul-africano com o Prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela: “Que suas escolhas reflitam suas esperanças, não seus medos.” Ela me tocou imediatamente, pois expressa com precisão aquilo que o nosso tempo exige com mais urgência do que nunca: decisões corajosas nascidas da força e da confiança — e não da ansiedade ou da resignação.

Esse espírito define o trabalho da Fundação MAHLE há mais de sessenta anos. No ano passado, mais uma vez, a proprietária da nossa empresa apoiou cerca de 120 projetos nas áreas de Educação & Aprendizagem, Arte & Cultura, Saúde & Cuidados Médicos, e Agricultura & Alimentação. São iniciativas que incentivam as pessoas a seguirem novos caminhos, a realizarem seu potencial e a promoverem mudanças duradouras. Afinal, o futuro só toma forma quando as pessoas enfrentam os desafios com coragem, responsabilidade e verdadeira confiança.

Uma amostra disso pôde ser vivenciada de forma especialmente marcante no último outono, durante o Feinstoff Festival, realizado por ocasião do 60º aniversário da MAHLE-STIFTUNG, que transformou a igreja St. Maria, em Stuttgart, em um espaço aberto de ressonância. Durante quatro dias, a igreja tornou-se palco de arte, cultura, espiritualidade e diálogo cívico. Concertos, performances, leituras, dança e instalações encantaram os visitantes ao envolver igualmente visão, audição, sentimento e experiência — transformando o edifício em um lugar de criatividade, diversidade e inspiração.

Inspiração e pensamento renovado também estão no centro dos temas dos eventos que temos realizado há dois anos em parceiria com a Fundação MAHLE em nosso recém-modernizado centro de marca e comunicação, o MAHLE Inside. Nosso “Philosophical Evening” (Noite Filosófica) tornou-se uma espécie de combustível para a mente e o espírito — oferecendo novas perspectivas sobre as questões fundamentais da existência humana e alcançando o raro feito de ser ao mesmo tempo envolvente e intelectualmente desafiador.

2025 foi um ano bastante exigente para a MAHLE como empresa. A retração dos mercados automotivos na Europa e na América do Norte, as tensões geopolíticas e o persistente debate sobre tarifas comerciais nos mantiveram plenamente ocupados. Nesse contexto, continuamos focados em fortalecer nossa resiliência e nossa capacidade de geração de resultados, ao mesmo tempo em que melhoramos nossa rentabilidade — e, em muitos aspectos, fizemos progressos consideráveis.

Reorganizamos todo o grupo em apenas 200 dias: consolidando divisões de negócios, simplificando estruturas de gestão e transferindo responsabilidades para nossas unidades regionais. Juntamente com nosso programa “Back on Track”, nos aproximamos do objetivo de melhorar a colaboração e os processos em todo o grupo, trabalhar de forma mais eficiente e, assim, tornar-nos mais rápidos e eficazes para nossos clientes.

Continuaremos a desenvolver nossa posição como parceiro de inovação da indústria automotiva. Produtos como nosso novo “sistema range extender” de alta eficiência e nosso mais recente “módulo de gerenciamento térmico" ajudam a ampliar a autonomia de veículos elétricos, tornando a eletromobilidade ainda mais atrativa. Ao mesmo tempo, nossa expertise automotiva oferece uma base sólida para inovação em outros mercados: novos módulos de resfriamento para sistemas de armazenamento de energia em baterias e carregamento em megawatts estão entre as aplicações promissoras que apresentamos em 2025.

Este ano repleto de acontecimentos foi encerrado com um momento marcante que também simbolizou o fim de uma era: o Professor Dr.-Ing. Heinz K. Junker, presidente de longa data tanto do Conselho de Supervisão da MAHLE quanto da MABEG, transferiu a liderança de ambos os órgãos ao seu sucessor, Dr. Michael Macht, onde esteve por dez anos. Curvamo-nos em reconhecimento e gratidão a uma personalidade que marcou nossa empresa de forma decisiva ao longo de décadas e aguardamos com grande confiança a colaboração com o Dr. Macht.

2026 também será um ano intenso e desafiador para a MAHLE. Continuaremos perseguindo nossos objetivos com determinação, foco e estratégia clara. O fato de podermos fazê-lo deve-se, em grande medida, à Fundação MAHLE — uma proprietária guiada por valores, cuja atuação torna possível uma ação sustentável e orientada a longo prazo.

Sou grato à Fundação MAHLE por seu compromisso constante e por seu espírito de confiança — ambos nada óbvios em tempos atuais. Desejo à Fundação muito sucesso em 2026. Nós, da MAHLE, faremos nossa parte para garantir que os projetos da Fundação continuem a nutrir coragem, força e confiança às pessoas.



Arnd Franz Presidente e Diretor Executivo Grupo MAHLE



Associados e Conselho Consultivo da Fundação MAHLE



Associados da Fundação MAHLE



Membros do Conselho Consultivo da Fundação MAHLE



Festival Feinstoff: Quatro dias entre o céu e a terra

Quando vozes angelicais ecoam sob abóbadas góticas, a luz se transforma em música e pessoas de todas as gerações fazem malabarismo juntas no pátio da igreja, algo mais do que um festival cultural está em curso. De 2 a 5 de outubro de 2025, a Igreja de Santa Maria, em Stuttgart, tornou-se um lugar onde o sutil se fez tangível: aquela qualidade particular que há entre o material e o espiritual, entre o visível e o invisível.

Uma visão se torna realidade

Com o Festival Feinstoff, a Fundação MAHLE celebrou 60 anos de trabalho filantrópico — oferecendo, sobretudo, um presente à cidade de Stuttgart. Gratuito, para todos, no coração da vida urbana pulsante. Era exatamente isso que Hermann e Ernst Mahle tinham em mente quando fundaram a Fundação, em 1964: uma economia a serviço da sociedade, compromisso com o bem comum em vez da exclusividade. Por quatro dias, o festival tornou esse ethos palpável.

A escolha do local foi estratégica: a Igreja de Santa Maria abre suas portas sob o lema “Temos uma igreja. Você tem uma ideia?” a todas as pessoas, independentemente de idade, origem, religião ou renda. Esse espírito permeou o festival — desde os bancos abandonados no pátio, transformados em assentos, até os coloridos guarda-sóis que converteram o espaço urbano em um oásis de encontro.

Manifestações artísticas

A programação orquestrou um verdadeiro processo de intercâmbio entre diferentes manifestações artísticas. O coro de câmara Figure Humaine abriu o festival com uma jornada musical inspirada nos anjos — de hinos barrocos de louvor à estreia mundial de uma composição angelical especialmente encomendada. Dentro das veneráveis paredes da igreja, as vozes se desdobraram com uma força que muitos visitantes descreveram como profundamente comovente.

De forma diferente, mas não menos envolvente, foi a apresentação noturna de Laurenz Theinert e Bo & Herb: quando o som se torna luz e a luz começa a ressoar, as fronteiras entre os sentidos se desfazem. O “Piano Visual” gerou estruturas luminosas que preenchiam o espaço, ao vivo e em tempo real, enquanto paisagens sonoras analógicas e digitais criavam um ambiente hipnótico. Até bem depois da meia-noite, pessoas permaneceram absortas nos bancos da igreja — algumas de olhos fechados, entregues ao som; outras, fascinadas pelas formações luminosas pulsantes.

Encontro de gerações

O clima ficou especialmente animado quando o Circuleum abriu seu circo móvel no pátio da igreja. Crianças e adultos se aventuraram em malabarismos, acrobacias e pratos giratórios — um contraponto alegre aos momentos contemplativos dentro da igreja. O caminhão de bombeiros adaptado chamou tanto a atenção do público, que não era incomum ver uma criança de oito anos e sua avó rindo, ao deixarem os tapetes de treino.

A performance acrobática Gap of 42, de Chris e Iris, explorou de forma tocante como diferenças de 42 centímetros de altura e 42 kilos de peso, não precisam afastar, mas podem se conectar.Três caixas de madeira tornaram-se parceiras de jogo que compensavam a diferença de altura e possibilitavam momentos poéticos de encontro.

Entre o passado e o presente

O Forum Theatre se aventurou em Anjos de Rilke, abordando as Elegias de Duíno — essa obra-prima quase insondável da poesia alemã. “Quem, se eu gritasse, me ouviria entre as hierarquias dos anjos?” Com essa pergunta começou uma abordagem performativa dos versos misteriosos de Rilke, acompanhada pela música de Grischa Lichtenberger. A apresentação demonstrou de forma impressionante que uma arte exigente pode ser acessível.

Uma abordagem inteiramente diferente do tema angelical foi oferecida pelo Seminário Filosófico com a Dra. Lydia Fechner e o professor Harald Schwaetzer. A palestra introdutória sobre a angelologia cristã e a subsequente viagem visual pela história da arte mostraram como a compreensão desses seres espirituais evoluiu ao longo dos séculos. No salão da igreja, cheio de pessoas, ficou claro: o interesse por questões fundamentais da existência humana permanece inalterado.



O som como ponte

A música permeou o festival em todas as suas facetas. A organista Lydia Schimmer revelou todo o espectro de sons angelicais no magnífico órgão da Igreja de Santa Maria — de Messiaen a Webber. O grupo vocal BEYOND VOWELS, com sua técnica de canto harmônico polifônico, criou sons a oito vozes a partir de quatro vozes e transformou o espaço da igreja em uma catedral sonora.

O Seminário Livre da Juventude também contribuiu: 35 jovens de todo o mundo apresentaram música coral internacional com seu coro — tão diversa quanto os próprios participantes. Como homenagem especial ao recém falecido compositor germano-brasileiro Ernst Mahle (1929–2025), foi realizada uma apresentação encomendada especialmente para a ocasião, de Jean Kleeb.

Poesia em todas as formas

Na batalha de poesias (poetry slam) com o tema: “Dead or Alive?!”, poetas contemporâneos de palco encontraram a grande literatura mundial. O grupo de declamação Academia da Palavra Falada trouxe poetas falecidos de volta à vida e os colocou em disputa com Aileen Schneider e Marvin Suckut. Uma batalha poética entre épocas, na qual o público decidiu ao final: os clássicos ainda se sustentam ou prevalece a força do presente?

No pátio da igreja, o coletivo Dreaming in Women junto com Eine Unterhaltung im Freien convidou as pessoas a ler, fazer piquenique e costurar. Pedaços de tecido trazidos pelos participantes foram unidos para formar uma grande toalha de piquenique, enquanto textos sobre anjos, monstros e outras criaturas eram recitados em alemão e inglês.

Arte que ressoa

A exposição na igreja dialogou com a “presença do ausente”. A instalação Conference of Angels I, de Dawn Nilo, colocou cadeiras de carpintaria do Goetheanum e objetos do cotidiano em diálogo entre si. MATERial, de Veronike Hinsberg, transformou a coleção têxtil de sua mãe falecida em um meio de armazenamento vivo, no qual o tempo e os contextos sociais se tornaram visíveis. A obra em vídeo em três partes Re-reverse, de Julia Schäfer, recordou a tradição quase esquecida dos toques dos sinos fúnebres e o trauma coletivo da “morte dos sinos” durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma ideia que segue adiante

O que permanece de quatro dias de festival? Mais do que memórias de belos concertos e performances comoventes. O Festival Feinstoff mostrou como a cultura pode conectar — entre gerações, entre disciplinas artísticas, entre diferentes compreensões da realidade. Abriu um espaço no qual a comunidade se torna possível para além do consumo e da representação.

A Fundação MAHLE agradece a todos os artistas, aos parceiros de cooperação — sobretudo à Igreja de Santa Maria, ao Circuleum, ao Forum Theatre, à Academia para a Palavra Falada, ao Eurythmeum Stuttgart, ao Seminário Filosófico e ao Seminário Livre da Juventude — bem como a todos os visitantes que fizeram do festival o que ele foi: uma celebração para todos, no coração da vida urbana. Uma celebração que levou adiante, de forma vibrante, a visão dos fundadores da Fundação e demonstrou o que surge quando a arte não permanece distante, mas se mantém enraizada — e, precisamente por isso, é capaz de se elevar a esferas mais altas.



Saúde & Assistência Médica

Onde a Visão Empreendedora Encontra a Arte de Curar

50 Anos da Filderklinik

Uma vila em Stuttgart torna-se pequena demais, dois irmãos reconhecem o potenciale um sonho transforma-se em um dos hospitais antroposóficos mais importantes da Europa.

O ano é 1963 e, dentro de um pequeno círculo de médicos dedicados, começa a tomar forma uma ideia de grande alcance. Em uma vila em Stuttgart, o Dr. Walter Bopp exerce, desde o fim da guerra, uma medicina que vai muito além dos limites convencionais. Sua clínica médica, com apenas 40 leitos, funciona segundo os princípios da medicina antroposófica – a arte de curar fundada por Rudolf Steiner, que compreende a saúde humana como uma unidade de corpo, alma e espírito.

Hermann & Ernst Mahle (1938)

Uma Visão Toma Forma

Contudo, as instalações modestas já não conseguem acompanhar a crescente demanda. O que é possível dentro da vila rapidamente atinge seus limites: não há elevador, pacientes gravemente enfermos precisam ser carregados até os quartos em cadeiras de vime, e equipamentos médicos modernos mal encontram espaço. O círculo de médicos ao redor do Dr. Bopp sonha há tempos com algo maior – um hospital antroposófico moderno, com diferentes especialidades, que pudesse oferecer a Stuttgart e à região uma alternativa genuína ao atendimento exclusivamente convencional.

Então, o consultor tributário da clínica os coloca em contato com dois irmãos da comunidade empresarial suábia. Hermann e Ernst Mahle, fabricantes de pistões bem-sucedidos, não são apenas industriais perspicazes, mas também antropósofos convictos. Como empresários atuantes, sabem que apenas visões não são suficientes – são necessários os parceiros certos e, acima de tudo, uma base financeira sólida.

Do Acaso ao Destino

1964 torna-se um ano decisivo para todos os envolvidos. Quase simultaneamente, surgem duas instituições que tornam possível o projeto da Filderklinik: em março, a associação beneficente Filderklinik e. V. é registrada no cartório de associações de Stuttgart; em dezembro, nasce a Fundação MAHLE-STIFTUNG GmbH. O que parece um procedimento administrativo de rotina é, na verdade, o nascimento de um dos projetos médicos mais ambiciosos da região.

A ligação entre o grupo de médicos e os irmãos Mahle mostra-se providencial. Aqui, a competência médica encontra a experiência empresarial; aqui, encontram-se pessoas que compartilham uma visão comum: uma medicina que é mais do que a soma de suas possibilidades técnicas.

Quando as ideias viram realidade

No entanto, entre o sonho e a realização, surgem, como tantas vezes, obstáculos imprevistos. O terreno inicialmente previsto em Stuttgart-Heumaden revela-se inviável. O tempo passa, Ernst Mahle fica impaciente – já com setenta anos, deseja ver a clínica inaugurada ainda em vida.

Algo então começa a se movimentar: Friedhardt Pascher, prefeito empreendedor da tranquila comunidade de Filder, Bonlanden, reconhece a oportunidade. Uma clínica moderna em seu município seria um verdadeiro ganho para a região. Juntamente com o prefeito Illig, da vizinha Plattenhardt, Friedhardt empenha-se em realizar o projeto. Sua persistência é recompensada: em 15 de outubro de 1972, é lançada a Pedra Fundamental em Haberschlaiheide, na pitoresca borda de uma área de conservação paisagística coberta por zimbros.

Mais do que Apenas um Hospital

O que surge supera todas as dimensões inicialmente previstas. Dos 70 a 120 leitos planejados, concretizam-se 216 – a Filderklinik desenvolve-se como hospital geral e de cuidados agudos, com departamentos de Clínica Médica, Cirurgia, Ginecologia/Obstetrícia, Pediatria e – algo bastante incomum para a época – Psicossomática. Para os numerosos colaboradores e suas famílias, são construídos 132 apartamentos de diferentes tamanhos, além de uma creche para as crianças.

Os custos de construção, de aproximadamente 50 milhões de marcos alemães, ultrapassam em muito a capacidade financeira da Fundação MAHLE. Empréstimos precisam ser contraídos, pois o edifício deve ser não apenas funcional e tecnicamente moderno, mas também “arquitetonicamente vivo e artisticamente concebido”, como consta nos documentos de planejamento

Um Novo Capítulo Começa

Em 29 de setembro de 1975, chega finalmente o momento: a Filderklinik é inaugurada solenemente. Mais de 6.000 visitantes curiosos comparecem para conhecer o hospital de arquitetura marcante. Em seu discurso, Ernst Mahle presta homenagem ao seu irmão Hermann, já falecido, que infelizmente não pôde testemunhar a inauguração.

Um ano antes, já havia sido criada a associação de apoio Filderklinik e. V., que passa então a assumir a operação prática da clínica. Um arranjo engenhoso que se mostrou bem-sucedido até os dias atuais.

Um Legado com Futuro

O que começou em 1963 como a ousada visão de alguns médicos e se tornou possível graças à visão de futuro de dois irmãos empreendedores é hoje uma instituição consolidada no cenário médico alemão. A Filderklinik demonstra diariamente que a medicina antroposófica e a tecnologia médica de ponta não são antagonicas, mas podem se unir para criar uma arte de curar que considera o ser humano em sua totalidade.

Hermann e Ernst Mahle certamente teriam se alegrado: de sua visão nasceu não apenas um hospital, mas um lugar vivo onde “o bem público antes do lucro privado” é praticado diariamente – em plena consonância com a filosofia de sua Fundação.



Saúde & Assistência Médica

Da Visão à Realidade: 50 Anos da Filderklinik

a Serviço da Medicina Integrativa

O que começou, em 1975, como um experimento ambicioso tornou-se uma referência consolidada no sistema de saúde alemão. Há cinco décadas, a Filderklinik demonstra que a medicina antroposófica e a tecnologia de ponta não são forças ANTAGONICAS — mas podem unir-se para criar uma arte de curar que leva a sério o ser humano em sua totalidade

Quando mais de 6.000 visitantes curiosos compareceram à inauguração da Filderklinik, em 29 de setembro de 1975, tratava-se de algo muito além da abertura de um novo hospital. Era o encontro com uma visão que pretendia repensar a própria medicina. “O edifício estava festivamente decorado e parecia um mar de flores”, recordaria mais tarde Ernst Mahle sobre aquele dia memorável.



Entre o sonho e a realidade, porém, surgiram – como tantas vezes acontece – desafios imprevistos. Os 70 a 120 leitos inicialmente planejados haviam se transformado em 216. O que começara como uma clínica médica evoluíra para um hospital de atendimento geral, com departamentos de clínica médica, cirurgia, ginecologia/obstetrícia, pediatria e – revolucionário para a época – psicossomática.

A Formação em Medicina Antroposófica

Rudolf Steiner havia atribuído aos médicos uma tarefa específica: oferecer uma formação prática na metodologia médica antroposófica. Os fundadores da Filderklinik assumiram esse desafio com o espírito sério dos pioneiros. Já em 1982, foi inaugurada na Filderklinik a Escola Independente de Enfermagem, financiada com recursos da Fundação MAHLE e por meio de um programa federal de formação.

Desse impulso nasceu um verdadeiro universo educacional. O Centro de Formação em Enfermagem, criado em 2012, apostou em conceitos inovadores como “Caminhos de Aprendizagem – Aprendizagem Individual na Formação em Enfermagem”. Ali, futuros enfermeiros aprendem por meio de abordagens cooperativas e de espaços de reflexão pessoal e profissional, preparando-se desde o início para enfrentar os desafios estruturais do sistema de saúde.

O Seminário Médico Antroposófico, posteriormente renomeado Academia Eugen-Kolisko, tornou-se uma instituição internacional de formação, com influência que ultrapassa as fronteiras da Alemanha. Ali formaram-se não apenas médicos competentes, mas embaixadores de uma outra maneira de compreender o processo de cura.

Inovação e Tradição em Harmonia

As primeiras décadas foram marcadas por crescimento contínuo e pela consolidação gradual como centro médico de relevância suprarregional. A crescente aceitação foi favorecida pela construção de um heliporto em 1977 e pela inclusão da Filderklinik no plano distrital de emergência em 1978. O que antes era visto como medicina alternativa passou, cada vez mais, a demonstrar seu valor como componente indispensável da assistência regional.

Hoje, a combinação bem-sucedida entre tradição e inovação é particularmente visível na tecnologia médica utilizada. “Hoje contamos com resolução 4K; isso é quatro vezes mais do que uma televisão HD, permitindo visualizar cada detalhe durante a cirurgia”, explica o Prof. Dr. Marty Zdichavsky sobre os modernos sistemas de laparoscopia. Ao mesmo tempo – e aqui reside o diferencial – os pacientes recebem aplicações especiais de eucalipto após as cirurgias para melhorar a ventilação pulmonar, ou massagens relaxantes nos pés com alecrim para prevenção de trombose. Tecnologia médica de ponta e natureza trabalham juntas, de forma harmoniosa.

Excelência Médica com Toque Humano

Três áreas conquistaram rapidamente reconhecimento suprarregional: pediatria, psicossomática e obstetrícia. Esta última tornou-se a verdadeira marca da clínica. Em 2003, a Filderklinik foi o 14º hospital da Alemanha a receber o prestigiado selo “Hospital Amigo da Criança”. Em 2014, o 45.000º bebê nasceu em Filderstadt – um número que fala por si.

A medicina paliativa não é – ao contrário do que muitos pensam – apenas cuidado no fim da vida

Dr. Stefan Hiller

A ampliação da unidade de neonatologia, em 2021, exemplifica essa filosofia. Ali, a mais moderna tecnologia médica está disponível para monitoramento, ventilação e cuidado de recém-nascidos e prematuros. O diferencial, porém, está no fato de que os quartos foram projetados de forma tão ampla que a cama da mãe pode permanecer ao lado do bebê – tecnologia a serviço da humanização.

Outro marco foi a inauguração, em 2009, do “Centro de Oncologia Integrativa”. “A medicina paliativa não é – ao contrário do que muitos pensam – apenas cuidado no fim da vida”, esclarece o Dr. Stefan Hiller, diretor da Clínica. “Seu foco está em oferecer qualidade de vida ao paciente em estado terminal pelo maior tempo possível.”

Em 2023, o Professor Thorsten Kühn integrou-se à equipe como especialista reconhecido em ginecologia, criando em 2025 um centro especializado em câncer de mama.

Em 2024, a Clínica recebeu certificação como centro de obesidade – área em que a interação entre competência médica e cuidado humano é particularmente essencial. “A obesidade é uma interação complexa de fatores físicos, psicológicos e sociais”, explica a Dra. Ute Gunzenhäuser, médica responsável e diretora do centro. Com notável franqueza, ela acrescenta: “Graças à Fundação MAHLE, não enfrentamos as mesmas pressões econômicas que outras instituições. Isso nos dá a liberdade de, se necessário, cuidar de um paciente por três meses a mais quando isso aumenta as chances de sucesso.”

Superando Desafios ECONÔMICOS

A introdução dos “grupos relacionados a diagnósticos” (DRGs), em 2004, trouxe novos desafios para todos os hospitais alemães – especialmente para a Filderklinik. “As pessoas não recebem mais alta quando estão totalmente curadas, mas quando já não necessitam mais de tratamento hospitalar”, descreveu uma enfermeira experiente sobre a nova realidade. As terapias antroposóficas, por vezes, necessitam de tempo para manifestar plenamente seus efeitos – um luxo que o novo sistema de remuneração permitia apenas parcialmente. Para manter maior autonomia, a Filderklinik foi transformada, em 2006 em uma sociedade limitada sem fins lucrativos. Hoje, a Fundação MAHLE detém 70% das cotas, reforçando seu compromisso duradouro com o projeto.

Pesquisa como Ponte entre Mundos

Em 2010, foi fundado o Instituto ARCIM – uma instituição dedicada à pesquisa acadêmica em medicina complementar e integrativa. Ali, investigações científicas validam o que médicos antroposóficos já conheciam da prática há décadas: que terapias integrativas funcionam.

Os resultados são expressivos: um dos primeiros estudos do ARCIM demonstrou a eficácia da massagem rítmica no tratamento de dores nas costas. Outras pesquisas indicam que terapias com visco aliviam a fadiga crônica e que quase metade das crianças e jovens com pneumonia podem ser tratadas com sucesso sem antibióticos, graças a abordagens terapêuticas integrativas.

Desenvolvimento Arquite-tônico como Reflexo do Sucesso

O sucesso da clínica refletiu-se, desde o início, em constantes ampliações. O primeiro diretor-geral, Ernst Harmening, resumiu com precisão: “Desde a inauguração, vivemos aguardando o dia da próxima ampliação.” O que parecia uma exageração simpática revelou-se profético.

Em 1996, com apoio da Fundação MAHLE, foi concluída uma ampliação de 11.000 metros quadrados. Em 2007, inaugurou-se um novo hall de entrada, descrito pelo jornal Esslinger Zeitung como um “oásis verde inundado de luz”. Arquitetura como contribuição terapêutica, poder-se-ia dizer.

Olhando para o Futuro: Preservar O VALIDADO, Acolher o Novo

Ao agir, os deuses se inclinam

Ita Wegman

Hoje, 50 anos após sua fundação, a Filderklinik enfrenta novos desafios. Mudanças demográficas, digitalização, escassez de profissionais e aumento dos custos dominam os debates sobre o futuro da medicina.

Entretanto, são justamente esses desafios que demonstram a atualidade da ideia fundadora. “Ao agir, os deuses se inclinam”, disse certa vez a médica antroposófica Ita Wegman. Essa frase, depositada na Fundação durante a cerimônia da Pedra Fundamental, continua tão atual quanto naquela época. A Filderklinik demonstra diariamente que excelência técnica e cuidado humano não são opostos – mas duas faces de uma mesma moeda que merece o nome de arte de curar

Saúde & Assistência Médica

A Filderklinik em Transformação

Medicina do futuro entre alta tecnologia e a arte de curar

O sistema de saúde alem o enfrenta uma transformação profunda. Enquanto muitos hospitais temem por sua sobrevivência, a Filderklinik olha para o futuro com surpreendente confiança. O diretor-geral Nikolai Keller fala sobre um planejamento cuidadoso, a força da especialização e uma medicina que pretende ser ambas as coisas: de ponta e humana.



Uma reforma que muda tudo

Desde o final de 2024, está em vigor a Lei de Melhoria da Assistência Hospitalar — trazendo consigo uma das reformas estruturais mais abrangentes do sistema de saúde alemão em décadas. O antigo sistema baseado em remuneração por caso, que incentivava os hospitais a realizarem cada vez mais procedimentos, está sendo gradualmente substituído por 65 grupos de serviços padronizados nacionalmente. No futuro, os hospitais só poderão oferecer serviços para os quais cumpram os respectivos critérios de qualidade: desde equipe médica especializada e tecnologia médica até departamentos especializados. Cerca de 60% dos custos operacionais passarão a ser financiados por uma chamada “remuneração de disponibilidade”, onde o médico fica disponível — independentemente do número real de pacientes atendidos.

O que para muitas instituições levanta questões existenciais tem um efeito quase paradoxal para a Filderklinik, em Filderstadt-Bonlanden: ela se encontra em posição relativamente sólida. “Fizemos nosso dever de casa nos últimos sete anos”, afirma o diretor executivo Nikolai Keller. O motivo: a clínica apostou de forma consistente na especialização e na certificação – uma estratégia que agora se mostra visionária.

Começamos há 50 anos como uma instituição de atenção básica”, explica Keller. “Ainda temos a aspiração de poder atender as pessoas aqui da região.

5 Centros, Um Perfil Claro

Cinco centros certificados são o resultado desse realinhamento estratégico: um centro de câncer de mama, certificado no final de 2025; um centro de obesidade; um centro de cirurgia minimamente invasiva; um centro de hérnia; e o centro perinatal com sua tradicional maternidade. Esses centros especializados atual em alto nível – da clínica e cirurgia até a medicina psicossomática.

Mas precisamos nos perguntar: o que realmente nos caracteriza? O que sabemos fazer muito bem? E devemos fazer apenas isso.

A Filderklinik recebeu todos os grupos de serviços que eram relevantes para ela. Enquanto outras instituições agora enfrentam o desafio de ter poucos especialistas para muitas áreas, a clínica antroposófica se beneficia por se concentrar em áreas essenciais.

O Papel Especial da Fundação MAHLE

O fato de a Filderklinik ter podido seguir esse caminho também se deve a uma característica que a distingue da maioria dos hospitais: trata-se de uma instituição que a Fundação MAHLE – fundada em 1964 pelos irmãos Hermann e Dr. Ernst Mahle – continua apoiando até hoje como acionista.

“Os recursos da Fundação MAHLE fluem quase exclusivamente para infraestrutura”, explica Keller. “Isso nos ajuda enormemente, pois nos permite desenvolver nossa tecnologia médica e nossas edificações de formas que normalmente seriam impossíveis para uma instituição do nosso porte.”

Na prática, isso significa equipamentos diagnósticos de última geração – desde ressonância magnética e mamografia até radiografia – e a possibilidade de acompanhar o desenvolvimento tecnológico. Atualmente, por exemplo, a clínica está introduzindo endoscopia assistida por inteligência artificial, um sistema em que o computador analisa as imagens em segundo plano e fornece orientação aos especialistas experientes.

Regenerando o Futuro

Os próximos grandes investimentos já estão sendo planejados. No topo da lista está um novo centro energético que abastecerá todo o campus da clínica – incluindo residências, jardim de infância e escola de enfermagem – com energia renovável. O pedido de licença já foi protocolado; a implementação está prevista para os próximos dois a três anos.

“Queremos nos afastar do gás e do petróleo”, afirma Keller. A sustentabilidade já ocupa um lugar central na Filderklinik: um gerente de sustentabilidade coordena as iniciativas; um catálogo de medidas foi desenvolvido em conjunto com a Universidade de Stuttgart. A abrangência vai desde a conversão da iluminação e a redução de gases anestésicos – uma das maiores cargas ambientais na operação hospitalar – até a redução no desperdício de alimentos.

Não estamos fazendo greenwashing”, enfatiza o diretor executivo. “Boa sustentabilidade não custa dinheiro, economiza dinheiro – pelo menos no longo prazo. Mas exige esforço.” A Filderklinik decidiu deliberadamente não aderir a esquemas de compensação por plantio de florestas ou comércio de emissões.

Em vez disso, aposta em mudanças operacionais reais – e inclui os fornecedores nesse processo: “Não podemos negociar cada parceiro contratual até o limite da dor. Ambos os lados precisam estar satisfeitos – essas são relações sustentáveis.”

O Ser Humano no Centro

A escassez de profissionais qualificados também afeta a Filderklinik. Ainda assim, as condições – desde moradia acessível e estacionamento gratuito até excelente alimentação para os colaboradores – tornam a instituição atraente. Mais decisivo, porém, segundo Keller, são: as perspectivas de desenvolvimento.

“Aqui, a enfermagem não se limita ao cuidado corporal e à administração de medicamentos”, explica. “Nosso perfil profissional é cuidado e terapia. Os enfermeiros são membros da equipe terapêutica.” Isso é bem recebido – inclusive por pessoas que chegam à clínica sem qualquer vínculo prévio com a Medicina Antroposófica.

Um exemplo ilustra isso: durante uma observação, Keller viu uma enfermeira lavar uma paciente idosa com óleo de alecrim na água. “A reação foi imediata. A senhora disse: ‘Isso me fez tão bem.’ Essa sensação corporal revigorante – não se obtém com uma lavagem comum.”

Renascimento dos Médicos Antroposóficos

Durante muito tempo, a formação de uma nova geração de médicos com orientação antroposófica gerou preocupação. As grandes referências estavam se aposentando; as gerações mais jovens mostravam menos disposição para sacrificar seu tempo livre em formação adicional. A Filderklinik reagiu.

Primeiro, a instituição obteve certificação junto à Sociedade de Médicos Antroposóficos. Desde então, os médicos residentes podem realizar toda a sua formação – incluindo a qualificação adicional em Medicina Antroposófica – internamente. Em seguida, surgiu um grupo de trabalho de jovens médicos, experimentando diferentes formatos.

Todas as terças-feiras, às 7h30 da manhã, acontece uma formação sobre um tema de Medicina Antroposófica, relata Keller. “Essa formação atrai muitas pessoas”. Além disso os residentes fazem observações dos pacientes visitando as enfermarias e as unidades de “daycare”, incrementando a sua rotina profissional. Com cada novo residente o grupo realiza uma conversa de integração, onde é identificado se existe ou não interesse na Medicina Integrativa.

O sucesso confirma o conceito. “Temos novamente muitos jovens médicos interessados aqui”, diz Keller. “A vitalidade que desejávamos voltou.” Ele chega a fazer uma afirmação ousada: a Filderklinik é o hospital mais antroposófico da Alemanha. “Ninguém leva o tema tão a sério e o desenvolve de forma tão consistente quanto nós.”

Cuidado como Vantagem Competitiva

Mas a Medicina Antroposófica ainda é relevante em um mundo de crescente padronização, orientação por diretrizes e digitalização? Keller não vê contradição – pelo contrário.

A medicina está se tornando cada vez mais técnica”, afirma. “E justamente por isso a Medicina Antroposófica é um maravilhoso contraponto. É uma medicina da atenção pessoal.” Enquanto sistemas de IA oferecem orientação diagnóstica e diretrizes definem caminhos terapêuticos, o encontro pessoal entre terapeuta e paciente, entre enfermeiro e pessoa necessitada, permanece central.

Pelo menos uma vez por semana, cada departamento realiza uma conferência de casos: todos os pacientes são discutidos, todas as profissões envolvidas no tratamento estão presentes — às vezes 30 pessoas na mesma sala. “Essa forma de cuidado só existe conosco”, afirma Keller.

O Hospital do Amanhã

E em 25 anos? Nikolai Keller tem uma visão clara. Os belos edifícios de 1975 terão cumprido sua função como hospital de cuidados agudos – as exigências da medicina moderna evoluem rápido demais. Mas a Filderklinik terá se transformado em um centro integrado de cuidado ambulatorial e hospitalar, com instalações altamente tecnológicas e ofertas voltadas às questões cotidianas de saúde das pessoas.

O desenvolvimento já é visível: surgiu um centro médico com dez consultórios, além de inúmeras clínicas especializadas ambulatoriais. Muito do que antes era tratado em regime de internação hoje ocorre de forma ambulatorial – e essa tendência se acelerará. Até mesmo cirurgias de câncer de mama já são realizadas majoritariamente em ambulatórios na Inglaterra, relata Keller.

“A medicina será mais centrada no paciente”, está convicto o diretor executivo. As rígidas fronteiras setoriais entre hospitais, médicos autônomos e instituições de cuidado tenderão a desaparecer.

O que permanece é o núcleo: uma medicina que combina excelência técnica com cuidado humano. Uma arte de curar que leva o ser humano a sério em sua totalidade – física, psíquica e espiritualmente. Assim como os fundadores imaginaram há 50 anos.

Saúde & Assistência Médica

Instituto Compassos

“Nosso foco não são somente os jovens e adultos com deficiência, mas também a maneira como a sociedade os vê. Há pessoas que passam por eles e não os enxergam, então nosso trabalho é para que comecem a olhar para eles de outra forma”.

Daisy Buchele é daquelas pessoas inquietas. Há muito tempo sabe qual é a sua vocação no mundo e está sempre um passo à frente do tempo presente. Foi na experiência vivida nos anos 80 em um Camphill na Escócia que sua compreensão sobre o trabalho com pessoas com deficiência mudou radicalmente. Pela primeira vez ela se deparou com um modo de organização de moradia e trabalho que respeitava as individualidades dos jovens e adultos com deficiência, conferindo-lhes responsabilidades, autonomia e protagonismo. Neste local, o trabalho com a terra era o elemento central no cotidiano das pessoas; a vida da instituição pulsava a partir dessa relação entre o ser humano e a natureza. E tudo isso era absolutamente diferente do que ela via no Brasil, onde as pessoas com deficiência eram “escondidas” em suas casas, superprotegidas e infantilizadas.

Essa imagem de trabalho no campo sempre existiu pra mim porque na vida prática eu vi como as pessoas com deficiência aprendem no campo.

Daisy Buchele

De volta ao país, Daisy sabia que um modelo de educação inclusiva igual ao que tinha vivenciado no Camphill não se viabilizaria totalmente no Brasil devido às diferenças culturais, econômicas e da falta de apoio governamental, mas que um modelo adaptado à realidade local, sem idealizações ou grandes estruturas, focando na simplicidade, poderia funcionar.

“Essa imagem de trabalho no campo sempre existiu pra mim porque na vida prática eu vi como as pessoas com deficiência aprendem no campo. Mas o que eu via aqui na cidade eram possibilidades de trabalhos somente em mercados ou atividades esvaziadas de sentido”.

Essa inquietação a respeito das oportunidades oferecidas às pessoas com deficiência e o que é ensinado nas instituições que elas frequentavam foi o impulso, muitos anos depois, para que ela reunisse um grupo de profissionais ligados à educação e à saúde e apresentasse o projeto que tinha em mente.

Aquilo que era apenas uma ideia, começava a ganhar forma

Primeiro, a instituição foi formalizada recebendo o nome de Instituto Compassos; um tempo depois, em 2016, ganhou em comodato uma terra que estava abandonada no bairro do Campeche, na cidade de Florianópolis, sul do país. Aos poucos o terreno foi sendo limpo, a terra regenerada, construiu-se canteiros, estufas,... tudo a partir da Agricultura Biodinâmica. Com leis de incentivos e prêmios que receberam, conseguiram construir uma infraestrutura básica com banheiro seco e sede. E assim, passo por passo, a instituição foi se estruturando.

Mas não trabalhamos mais com pessoas com deficiência, nós trabalhamos com pessoas.

Daisy Buchele

Atualmente, além da horta, ela conta com espaços para oficinas artísticas e corporais. Toda essa estrutura foi construída de um modo bem simples, justamente para mostrar às pessoas que também almejam desenvolver um projeto similar que não é preciso muito para fazer um trabalho de boa qualidade.

Passados quase dez anos de trabalho com a agricultura biodinâmica no local, o Instituto já colhe os frutos desta dedicação: é a única horta urbana do país a ter a certificação Démeter, com uma capacidade semanal de produção de trinta cestas de verduras e legumes. Para que essa produção seja permanente, um grupo de colaboradores composto por pessoas com e sem deficiência trabalhando juntos, e recebem uma remuneração para tal.

A expansão do projeto para outras comunidades

A experiência bem sucedida no cultivo de alimentos biodinâmicos e a escassez de oferta desse tipo de alimento à população mais pobre resultou em um novo projeto do Instituto: a implementação dessa tecnologia agrícola em outros dois espaços que ficam em duas comunidades em vulnerabilidade social da cidade. Em ambas, os colaboradores com deficiência são protagonistas na condução das oficinas de plantio e cuidados com a terra, e permanecem com atividades regulares no local por seis meses. A partir daí, os próprios moradores assumem a responsabilidade pelo cuidado da horta, tendo o apoio do Instituto quando necessário.

“A ideia é que o Instituto se torne um instituto-escola, que ele seja um multiplicador. Que a gente possa sair para a comunidade, e que a comunidade possa vir para cá e fale: gente, isso existe, é possível!”

Olhar o outro para além do diagnóstico

Para a equipe que trabalha cotidianamente com os sete colaboradores que têm alguma deficiência, o diagnóstico nunca está à frente deles. Aliás, as especificações de qual síndrome, transtorno ou deficiência cada um tem é uma informação que apenas o terapeuta responsável da instituição possui. Isso significa que cada um é olhado a partir das suas potencialidades e encorajado a superar suas dificuldades, independente do diagnóstico.

“Houve um tempo onde nós trabalhávamos com pessoas com deficiência. Mas não trabalhamos mais com pessoas com deficiência, nós trabalhamos com pessoas”.

Processo vivo

Foi olhando para cada um deles, buscando manter o protagonismo e respeitando suas vozes e necessidades, que a equipe entendeu relevante estruturar uma outra frente de trabalho que pudesse atender aqueles que não se identificavam com o fazer na terra.

Assim, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina, iniciou-se o trabalho com a lã feltrada molhada, uma tecnologia manual bastante antiga, e que é a base para diversos produtos que são comercializados pela instituição, tais como manta, almofada, camisa e cachepô para vaso.

Em paralelo a esses dois grandes projetos (a horta e a lã), outras atividades vão sendo desenvolvidas pelo Instituto com a intenção de ser um ponto de cultura, encontros e saberes da comunidade.

E como o Compassos é um solo fértil também de ideias, a equipe já começa a sonhar com aquilo que a Dayse vivenciou lá no Camphill... um projeto de hotelaria que alie trabalho e moradia aos colaboradores com deficiência. Quem sabe em um futuro próximo Florianópolis possa contar com mais um projeto de inclusão social inovador e transformador.

“Em momento nenhum houve uma imagem final de onde queríamos chegar, não trabalhamos com imagem final, nós trabalhamos com processos, então, é importante que se dê o primeiro passo em uma certa direção, mas o que vai desembocar a gente não sabe porque se a gente começar a formatar muito a gente seca e deixa de ser um processo vivo, o que é algo muito importante pra nós”.

Agricultura & Alimentação

Do Banco deSementes ao Canteiro – Como um Feijão Esquecido Retorna aos Campo

Em Stuttgart-Möhringen, não crescem apenas hortaliças: lá, jardineiros dedicados às sementes preservam um patrimônio culinário que há muito foi suplantado pelas variedades de alto rendimento da agricultura industrial. A história de um feijão amarelo mostra como a paixão pela diversidade dá origem a um projeto que reúne cultivo regional, biodiversidade e soberania alimentar.

Um Tesouro do Jardim da Vov

A história começa em um mercado em Aspach-Rietenau. Um senhor idoso de Auenwald entrega a Ingo e Mechthild Hubl uma pequena coleção de sementes de feijão — variedades familiares cultivadas há gerações. “Nós as separamos, cultivamos e observamos o que se desenvolvia”, conta Ingo Hubl, durante uma visita guiada ao “Vielfaltsgarten” (Jardim da Diversidade), próximo à piscina ao ar livre de Möhringen. Entre estufas e canteiros outonais, cresce muito mais do que hortaliças: trata-se de um arquivo vivo da diversidade agrícola, um “Genbänkle” — banco de sementes — como se diz tão bem em Baden-Württemberg.

Ele formou plantas vigorosas, com boa produção de vagens de comprimento médio e fácil debulha.

Mechthild Hubl

Um feijão dessa coleção revelou-se um verdadeiro achado: o “Einbohne Amarelo”. “Ele se destacou logo nas primeiras multiplicações”, relata Hubl. “Ele formou plantas vigorosas, com boa produção de vagens de comprimento médio e fácil debulha.” Ainda mais importante: em uma degustação no Jardim Botânico da Universidade de Tübingen, os grãos convenceram a todos — com tempo de cozimento curto e sabor agradável, levemente adocicado. Qualidades que, em tempos de alimentação vegetal e valorização regional, voltam a ganhar grande relevância.

Autonomia de Sementes como Missão de Vida

Para Mechthild Hubl, engenheira agrônoma e força motriz do Jardim da Diversidade, trabalhar com variedades antigas é mais do que um hobby.

Foi quando percebi que funciona. É possível produzir as próprias sementes.

Mechthild Hubl

“No passado, aprendíamos na universidade que não se podia produzir as próprias sementes”, recorda. “Supostamente elas degenerariam.” Um equívoco que levou gerações de jardineiros à dependência da indústria de sementes. Mechthild recusou-se a aceitar isso: “Um passo importante para mim foi alcançar a autonomia de sementes”, explica. Um curso com a associação austríaca Arche Noah, há onze anos, abriu-lhe os olhos: “Foi quando percebi que funciona. É possível produzir as próprias sementes.”

Desde então, ela cultiva com energia e constância impressionantes. Hoje, os Hubl administram não apenas o jardim comunitário de 1.600 m², mas também um campo orgânico certificado medindo um terço de hectare para multiplicação de sementes — segundo os princípios da permacultura. “O aspecto orgânico é importante para nós”, enfatiza Ingo Hubl. “Para muitos, o solo é apenas substrato. Mas trata-se também da vida do solo; o microbioma precisa funcionar.”

Uma Rede pela Diversidade

Os Hubl fazem parte de algo maior: a Associação Genbänkle, uma rede com 126 membros dedicada à preservação de variedades antigas de hortaliças em Baden-Württemberg. Sob a liderança do professor Roman Lenz, ex-reitor da Universidade de Nürtingen-Geislingen, a associação fundada em 2018 busca conectar iniciativas voltadas às variedades raras e antigas. “Nós nos vemos como uma rede”, explica Ingo Hubl, responsável pelas finanças. “Trata-se de unir quem resgata e preserva variedades.”

As sementes determinam o que a humanidade come.

Ingo Hubl



O conceito funciona: por meio de um banco de dados online e mercados de sementes regulares, interessados encontram acesso a sementes regionais de polinização aberta — variedades que podem ser reproduzidas sem perder características, diferentemente das sementes híbridas. “Querem envenenar’ as pessoas com as sementes industriais”, diz Ingo Hubl com um sorriso — embora fale muito seriamente. A questão das sementes tem dimensão política: “As sementes determinam o que a humanidade come. E nem sempre são desenvolvimentos positivos.”

Hoje, o mercado global de sementes é dominado por três grandes corporações. Suas variedades são otimizadas para a agricultura industrial — não para hortas domésticas ou pequenas propriedades. “Essas variedades de alto desempenho são como carros esportivos”, resume Hubl. “Funcionam bem no asfalto liso, mas basta um buraco e ficam presas.”

Da Horta à Agricultura

Com o "Einbohne Amarelo", os Hubl querem mostrar que é possível outro caminho. O que funciona em pequena escala deve ser ampliado para a prática agrícola. Desde 2025, um cultivo experimental de três anos ocorre em parceria com a fazenda Bioland de Till Brodbeck, em Stuttgart-Sonnenberg.

O que funciona em pequena escala deve ser ampliado para a prática agrícola.

Ingo Hubl

“Multiplicamos os feijões até termos cerca de 14 ou 15 quilos de sementes”, conta Hubl. “Depois combinamos com o agricultor Till para que ele testasse.” O projeto é cuidadosamente documentado: semeadura, manejo e colheita são realizados com máquinas agrícolas. Horas de trabalho, uso de equipamentos e rendimento são registrados. “Queremos saber como isso funciona em condições agrícolas reais”, explica Hubl. “Somos jardineiros amadores — mas isso precisa ir para o cultivo profissional.”

Os primeiros resultados são promissores. Paralelamente, desenvolvem-se estratégias de processamento e comercialização. A visão: levar o “Einbohne Amarelo” a lojas agrícolas, mercados orgânicos e até cozinhas profissionais. “A loja orgânica Plattsalat, em Stuttgart-Oeste, também demonstrou interesse”, relata Hubl. “Trata-se de comercialização local e geração de valor regional.”

“Einbohne Amarelo” é «cultivado em grande escala» no campo.

Sabor e Histórias

O “Einbohne Amarelo” se destaca não apenas pelo cultivo, mas também pelo potencial culinário. Em eventos de degustação, como em Stuttgart-Möhringen, onde Mechthild preparou ensopado e homus com o feijão, a recepção foi extremamente positiva. “A consistência cremosa do homus e o tempo curto de cozimento enriquecem a seleção de feijões”, entusiasma-se. O nome “Einbohne” vem do fato de que se semeia um grão a cada dez centímetros.

Mais do que produtividade, trata-se de histórias e patrimônio cultural. “Queremos saber se existe uma história por trás da variedade”, diz Ingo Hubl. Um tomate trazido por um prisioneiro de guerra. Feijões da Transilvânia. Variedades que lembram avós ou viveiros desaparecidos.

“Agora ainda há idosos que guardam variedades antigas”, alerta Hubl. “Em quase todo mercado de sementes ouvimos a mesma história: gostaríamos de ter um tomate com gosto de vovó. Mas a casa é vendida, constroem três sobrados no terreno — e a semente desaparece.”

O cultivo em maior escala deve permitir a colocação no mercado varejista de alimentos.

Uma Declaração Política no Campo

O trabalho do Genbänkle vai além da nostalgia. Contribui para biodiversidade, adaptação climática e soberania alimentar. “A boa adaptação às condições regionais permite cultivo orgânico simples, com menos doenças”, explica Mechthild Hubl. Diferente de leguminosas importadas da China ou Turquia, o “Einbohne” é adaptado ao clima local, robusto e não precisa viajar 20 mil quilômetros.

A reintrodução do “Einbohne Amarelo” fortalece recursos genéticos e biodiversidade. Enquanto a agricultura industrial reduz a base genética dos alimentos, variedades locais oferecem resiliência. Catálogos de sementes do início do século XX mostram uma diversidade hoje quase perdida.

Queremos encorajar as pessoas a produzirem suas próprias sementes.

Ingo Hubl

Incentivar o Espírito “Faça Você Mesmo"

Outro objetivo é transmitir conhecimento. “Queremos encorajar as pessoas a produzirem suas próprias sementes”, diz Hubl. Histórias alarmistas — como a da “abobrinha assassina” — desestimulam. “Mas isso é exagero. Se um tomate cruza, a variedade se altera, mas não vira veneno.”O conselho: “Deixe uma alface florescer, deixe um rabanete crescer. Não é ciência espacial.” Foi assim por gerações.

Os Hubl oferecem cursos, visitas guiadas e orientação. Mostram que o que funciona desde o Neolítico — cultivar, selecionar, multiplicar — continua funcionando hoje.

Otzi – o Homem do Gelo – não ia ao centro de jardinagem comprar pacotes coloridos

Ingo Hubl

“Otzi” – o Homem do Gelo – não ia ao centro de jardinagem comprar pacotes coloridos”, brinca Hubl. “Eles cultivavam, escolhiam o melhor e multiplicavam.” Assim surgiram variedades robustas ao longo dos milênios — e assim podem surgir novamente.

Quando, ao final do terceiro ano do projeto, o "Einbohne Amarelo" estiver difundido, comercializado e documentado, Ingo e Mechthild terão feito mais do que resgatar uma variedade esquecida. Terão demonstrado que soberania alimentar não é utopia. Que a valorização local é possível. E que em cada semente — por menor que pareça — reside um pedaço do futuro.

Vídeo sobre o projeto:

Agricultura & Alimentação

Do Medo ao Respeito

No Brasil, um extraordinário projeto de apicultura está transformando não apenas a relação entre seres humanos e abelhas — ele também está formando novas comunidades e trazendo nova vida a conhecimentos ancestrais.

Quando o projeto começou, eu tinha um medo enorme de abelhas.

admite uma das agricultoras que fizeram parte do programa. “Eu achava que elas eram agressivas e que iriam me picar. Mas, à medida que o projeto avançou, aprendemos a trabalhar com elas. Percebemos que elas precisam de gentileza, cuidado e, acima de tudo, atenção. O que mais me tocou foi perceber que a forma como devemos tratar as abelhas é a mesma forma como gostaríamos de ser tratados ao longo de nossas vidas — com respeito.”

Essa transformação é emblemática de um projeto notável que agora entra em seu quarto ano. A Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica, com o apoio do INSTITUTO MAHLE, capacitou algumas famílias rurais e apicultores convencionais em práticas de apicultura sustentável — utilizando um método que é ao mesmo tempo ancestral e original.

De Volta às Origens

No centro do projeto está a construção de colmeias de tronco — uma técnica tradicional com raízes no Leste Europeu, na África e nas comunidades indígenas do Brasil. Algumas são feitas em variações de palha e argila, materiais muito mais próximos da forma natural de vida das abelhas do que as caixas retangulares utilizadas na apicultura convencional.

“As colmeias de tronco são intensamente pesquisadas na apicultura biodinâmica porque imitam os habitats naturais das abelhas — que normalmente são cavidades em troncos de árvores”, explica Felipe Mendes, assessor técnico do projeto e apicultor. O que à primeira vista pode parecer uma nostalgia romântica tem razões práticas muito concretas: anos de pesquisa e trabalho de campo mostraram que abelhas mantidas em caixas retangulares convencionais — estruturas artificiais com ângulos de 90 graus — podem ser até vinte vezes mais agressivas do que em colmeias de tronco.

Colmeias de Tronco — De Volta à Natureza

As colmeias de tronco representam a forma mais original de apicultura, imitando os locais naturais de nidificação das abelhas selvagens — troncos ocos de árvores. Enquanto as colmeias convencionais são projetadas para maximizar a produção de mel, as colmeias de tronco colocam o bem-estar das abelhas e os ritmos naturais da colônia no centro. As abelhas são livres para construir seus favos de acordo com seus próprios instintos, em vez de serem obrigadas a se adaptar a quadros pré-definidos.

Uma Solução Adequada ao Brasil

Essa compreensão é especialmente relevante no Brasil, onde as abelhas — resultado de cruzamentos entre espécies europeias e africanas — são resistentes a doenças, mas também mais reativas. Em pequenas propriedades rurais, onde pessoas e colônias de abelhas frequentemente vivem muito próximas, as moradias naturais tornam-se, portanto, ideais.

O projeto já ultrapassou há muito seu público inicial. Além das famílias agricultoras e das escolas Waldorf que participam de oficinas e mutirões de construção, cada vez mais pessoas sem qualquer experiência prévia em apicultura estão se envolvendo. “O alcance do projeto tem sido surpreendente”, afirma Felipe Mendes, visivelmente satisfeito. “Para além da agricultura e do movimento Waldorf, ele atraiu pessoas que antes não tinham absolutamente nada a ver com apicultura e que agora participam de oficinas e atividades práticas. Isso é profundamente enriquecedor.”

Muito Mais do que Produtoras de Mel

Para os participantes, as abelhas já deixaram de ser apenas fornecedoras de mel — elas são compreendidas como seres essenciais, de importância central para o funcionamento dos ecossistemas e para a relação da humanidade com a natureza. Essa perspectiva holística corresponde à abordagem da agricultura biodinâmica, que concebe as propriedades rurais como organismos vivos, nos quais todos os elementos estão em relação entre si.

O alcance do projeto tem sido surpreendente.

Felipe Mendes

O que começou como um projeto educativo transformou-se em um pequeno movimento, que entrelaça conhecimentos tradicionais com uma compreensão ecológica contemporânea. Em um momento em que o declínio das populações de abelhas ocupa manchetes em todo o mundo, esse projeto aponta para um caminho diferente: um caminho de respeito, atenção e reconhecimento de que a relação entre seres humanos e natureza pode ser moldada por uma compreensão mútua.

A agricultora que antes temia as abelhas diz: não se trata apenas de uma forma diferente de criar abelhas — trata-se de uma forma diferente de viver junto.

Brazilian Biodynamic Agriculture Association:

Educação & Aprendizagem

Quando o Estábulo se Torna Sala de Aula

A Escola Rudolf Steiner de Loheland combina a pedagogia Waldorf com a agricultura biodinâmica – abrindo mundos de aprendizagem completamente novos para as crianças.

A manhã começa como sempre: os alunos do primeiro ano se reúnem em sua sala de aula, se cumprimentam e se sintonizam com o dia por meio de um verso coletivo. Mas então acontece algo bastante extraordinário – em vez de se voltarem para o quadro-negro, eles calçam suas botas de borracha e seguem para o pátio da fazenda. Lá, as vacas já aguardam o café da manhã, as cabras precisam ser ordenhadas e as galinhas alimentadas. Bem-vindos ao “Espaço de Vivência Loheland”, onde, desde o último ano letivo, o estábulo se transformou em sala de aula.

Tradição em Evolução

Loheland possui mais de um século de história. Em 1919, Louise Langgaard e Hedwig von Rohden fundaram, na região da Rhön, no estado de Hesse, uma escola de movimento, ginástica e dança – com a aspiração de promover o desenvolvimento humano integral. Desde o início, a agricultura biodinâmica fazia parte dessa visão, compreendendo o solo, as plantas e os animais como um organismo vivo.

No entanto, embora a escola Waldorf e a fazenda Demeter tenham coexistido lado a lado por décadas, faltava uma conexão mais profunda entre elas. “Certamente havia encontros ocasionais entre crianças e animais, mas nesses períodos breves as crianças não conseguiam assumir uma responsabilidade genuína”, explica o diretor-geral Maximilian Abou El Eisch-Boes, ao descrever a situação anterior

Isso estava prestes a mudar de forma fundamental. Inspirados pelo impulso fundador de Loheland – não apenas refletir sobre a transformação social, mas vivê-la – os responsáveis deram um passo ousado: a integração completa do organismo da fazenda ao organismo da escola.

Aprender com Todos os Sentidos

No centro do novo conceito está a chamada “pedagogia do fazer apoiada por animais e plantas”. Embora o termo possa soar pouco usual, ele descreve uma ideia simples e, ao mesmo tempo, pouco convencional: as crianças aprendem melhor quando estão plenamente envolvidas com todos os seus sentidos, quando assumem responsabilidades reais e podem vivenciar resultados imediatos.

O que acontece ali vai muito além do romantismo rural: as crianças assumem total responsabilidade pelo cuidado dos animais – desde a limpeza dos estábulos e a alimentação até o trato diário.

“Do primeiro ao quinto ano, cada turma passa um dia por semana na fazenda”, explica Hannah von Bredow, educadora com formação agrícola que coordena o projeto. “Os três primeiros anos vêm pela manhã, por várias horas, enquanto o quarto e o quinto anos vêm à tarde.” O que acontece ali vai muito além do romantismo rural: as crianças assumem total responsabilidade pelo cuidado dos animais – desde a limpeza dos estábulos e a alimentação até o trato diário. Além disso, ajudam em diversas tarefas na horta e nos campos.

O grande acerto pedagógico está no foco nas etapas do desenvolvimento. Os alunos do primeiro ano começam de forma lúdica, acompanhando os adultos em suas atividades. “Eles exploram seu novo espaço de vida e, pouco a pouco, se situam no tempo e no lugar”, descreve von Bredow sobre essa introdução cuidadosa. À medida que crescem, as crianças assumem responsabilidades maiores – avançando para tarefas complexas, como semear e colher grãos ou construir galinheiros.

Transformação pelo Encontro

Os efeitos são frequentemente impressionantes. Hannah von Bredow recorda-se de um menino do primeiro ano: “Ele chegou com uma atitude total de ‘tanto faz’, preferia ter ido para casa jogar videogame.” Mas então, pela primeira vez, deu feno a uma vaca. “A vaca aceitou, e ele ficou absolutamente fascinado. Ao alimentar os animais, foi se envolvendo cada vez mais.” Hoje, o menino ajuda com entusiasmo e demonstra um desenvolvimento que se reflete em toda a sua trajetória escolar.

Igualmente marcante é a história de uma menina que chegou à escola com muitas inseguranças: “Ela tinha medo genuíno de situações desconhecidas, se encolhia nos cantos e não ousava fazer nada”, relembra von Bredow. No início, também demonstrava receio em relação aos animais. “Mas, ao longo do ano letivo, isso mudou. Seu desenvolvimento é perceptível não apenas na fazenda, mas também nas aulas regulares.”

Essas observações coincidem com a experiência dos professores regentes. Quando as crianças retornam à sala de aula após um dia na fazenda, estão especialmente calmas e concentradas – não cansadas, mas equilibradas de uma maneira muito particular.

Aprendizagem Autêntica

O que diferencia a “Fazenda Loheland” do ensino convencional é a autenticidade das situações de aprendizagem. Em vez de tarefas abstratas, as crianças vivenciam conexões significativas imediatas. Quando uma turma do terceiro ano semeou trigo no outono e não conseguiu concluir todo o campo, a professora da classe transformou essa experiência em um bloco inteiro de matemática: “As crianças calcularam quantos grãos seriam necessários, sempre com o gancho: ‘A senhora von Bredow esqueceu o horário – então, quantos grãos seriam?’” O entusiasmo das crianças era palpável, pois havia uma conexão concreta com sua vivência.

Essa articulação entre atividade prática e aprendizagem teórica corresponde a um princípio central da pedagogia Waldorf, fundada por Rudolf Steiner em 1919 – o mesmo ano em que Loheland surgiu.

De Zoológico INTERATIVO a Fazenda de Preservação

Além de sua dimensão pedagógica, Loheland persegue um importante objetivo ecológico: tornar-se uma fazenda de preservação Demeter. Essas fazendas funcionam como verdadeiros oásis para raças domésticas ameaçadas de extinção. Segundo a Organização Mundial da Alimentação, em média uma raça desaparece a cada mês – o que torna essa missão particularmente urgente.

Só ouvimos elogios – tanto em relação ao conceito quanto ao trabalho com as crianças

Atualmente, a fazenda abriga bovinos Red Highland, cabras da Floresta da Turíngia e diversas raças de ovelhas. Os animais foram cuidadosamente selecionados e desenvolvidos para serem adequados ao trabalho pedagógico. “Ainda levará alguns anos até que o rebanho de bovinos seja realmente dócil”, reconhece von Bredow. “Mas as cabras já estão totalmente integradas – as crianças caminham com elas e fazem tudo junto.”

Repercussão e Crescimento

O sucesso do projeto se reflete em números concretos: o número de alunos aumentou de 485 para mais de 515. “Para minha turma do terceiro ano, esse é o dia favorito da semana”, relata uma professora. Os pais também se mostram entusiasmados: “Só ouvimos elogios – tanto em relação ao conceito quanto ao trabalho com as crianças”, observa a educadora.

Para minha turma do terceiro ano, esse é o dia favorito da semana.

Especialmente gratificante é o reconhecimento por parte da autoridade educacional do estado de Hesse: o dia na fazenda passou a contar oficialmente como aula de ciências, devido ao seu enfoque pedagógico, sendo, portanto, cofinanciado no âmbito do financiamento de escolas independentes. “Esse foi um avanço importante”, enfatiza Abou El Eisch-Boes. “Agora, o organismo escolar pode sustentar todo o organismo da fazenda.”

Olhando para o Futuro

A visão vai muito além do estágio atual. Estão previstos projetos de pesquisa em parceria com universidades para o acompanhamento científico da iniciativa, a criação de um centro STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) para os anos finais e uma integração ainda maior entre promoção da saúde e educação terapêutica. “Queremos investigar como a pedagogia da ação apoiada por animais e plantas influencia o desenvolvimento das crianças”, explica Abou El Eisch-Boes. As primeiras conversas com universidades e institutos de pesquisa já estão em andamento.

Também está prevista a abertura para o público externo: outras escolas poderão realizar semanas de projeto em Loheland, professores receberão formação, e famílias poderão vivenciar “férias na fazenda”. Um currículo será desenvolvido e disponibilizado para outras escolas Waldorf.

Queremos devolver às crianças a conexão com a natureza e com os fundamentos da nossa existência.

Abou El Eisch-Boes

Uma Sala de Aula Viva

O que acontece em Loheland é mais do que um conceito pedagógico extraordinário – é um exemplo de como a educação pode se configurar quando considera o ser humano em sua totalidade. Quando as crianças cuidam do gado pela manhã, colhem cenouras ao meio-dia e, à tarde, pintam e escrevem sobre suas vivências, estão aprendendo muito mais do que biologia e matemática. Desenvolvem responsabilidade, autoconfiança e uma compreensão profunda das interconexões da vida.

“Queremos devolver às crianças a conexão com a natureza e com os fundamentos da nossa existência”, resume Abou El Eisch-Boes. Em uma época em que as crianças entram em contato cada vez mais cedo com mídias digitais e o vínculo com o mundo natural ameaça se enfraquecer, Loheland apresenta um caminho alternativo – um caminho no qual o estábulo se torna uma valiosa sala de aula.

A transformação de Loheland está longe de concluída. Mas uma coisa já é clara: algo único está surgindo aqui – um lugar onde as crianças aprendem não apenas para a escola, mas para a vida. Um lugar onde uma visão centenária pode, finalmente, desdobrar todo o seu potencial.



Educação & Aprendizagem

Waldorf para Todos

No Brasil, o movimento Waldorf cresceu em um ritmo notável — mas durante muito tempo a formação antroposófica permaneceu um privilégio de poucos. Há dezoito anos, o “Fundo de Bolsas” vem ampliando o acesso à pedagogia Waldorf e à EDUCAÇÃO terapêutica. Com o apoio do INSTITUTO MAHLE, o programa de bolsas já possibilitou que mais de 1.000 professores e terapeutas concluíssem uma formação qualificada.

Quase sete décadas se passaram desde que a antroposofia criou raízes no Brasil. Entre todos os seus campos de atuação, a educação Waldorf foi a que se desenvolveu de forma mais dinâmica: hoje, 267 escolas Waldorf, distribuídas em 23 estados, reúnem mais de 21.000 alunos e 2.500 professores. A educação terapêutica e terapia social também seguem em expansão constante, com 13 instituições em 7 cidades dedicadas ao apoio a crianças, jovens e adultos com deficiência.

O gráfico que mostra o crescimento do número de escolas revela uma história impressionante: de uma única escola em 1956, passando por um crescimento constante nas décadas de 1980 e 1990, até um verdadeiro boom nos anos 2000. Nem mesmo a pandemia de Covid conseguiu interromper por muito tempo essa trajetória ascendente. No entanto, por trás desses números existia uma realidade social problemática: durante décadas, o acesso às propostas educacionais e terapêuticas antroposóficas permaneceu restrito às classes mais altas do Brasil.

O apoio para essa formação é um reconhecimento do direito de acesso à educação Waldorf.Significa que pessoas com poucos recursos financeiros também podem escolher os ensinamentos de Rudolf Steiner como um caminho para seu próprio desenvolvimento espiritual."

Uma Pioneira que Rompe Barreiras

Até relativamente pouco tempo atrás, as iniciativas antroposóficas no Brasil estavam disponíveis quase exclusivamente por meio de instituições privadas — e, portanto, acessíveis apenas àqueles que tinham condições financeiras para custeá-las.

Uma exceção notável foi a Associação Comunitária Monte Azul, fundada em 1979 pela educadora alemã Ute Craemer, em uma favela na periferia de São Paulo. Em um período em que o trabalho antroposófico estava amplamente concentrado em círculos privilegiados, Craemer criou um espaço onde pessoas em condições sociais precárias puderam ter acesso à educação Waldorf, à medicina antroposófica e às terapias artísticas.

Monte Azul tornou-se a semente de um novo movimento. A visão de Craemer — de unir impulsos antroposóficos com engajamento social — inspirou inúmeras iniciativas que surgiriam nas décadas seguintes. A organização tornou-se um exemplo vivo de como as ideias de Rudolf Steiner podem ser relevantes e acessíveis não apenas para uma elite, mas para toda sociedade.

A Questão da Formação Torna-se Urgente

O rápido crescimento das escolas Waldorf e das instituições de educação curativa nos anos 2000 revelou um problema urgente: a demanda por professores e terapeutas qualificados aumentou dramaticamente, enquanto os custos de uma formação antroposófica permaneciam fora do alcance de muitas pessoas. Aqueles que mais desejavam atuar em projetos sociais, escolas públicas ou comunidades de baixa renda eram justamente os que encontravam uma barreira financeira intransponível.

Dessa necessidade surgiu, em 2008, o “Fundo de Bolsas”, um fundo coletivo criado para oferecer apoio financeiro à formação antroposófica. A ideia central era simples e eficaz: uma rede de instituições e apoiadores antroposóficos trabalharia em conjunto para garantir que o acesso à formação não dependesse mais dos recursos do candidato.

Desde sua criação, o fundo já possibilitou que mais de 1.000 pessoas de diferentes regiões do Brasil tivessem acesso a um dos 28 cursos de formação para atuação em escolas Waldorf e instituições de educação curativa. A oferta inclui desde formação básica de professores Waldorf, até programas especializados em artes, além de cursos avançados em educação terapêutica e terapia social.

O INSTITUTO MAHLE Assume Responsabilidade

Dois anos após a criação do fundo, o INSTITUTO MAHLE passou a integrar o grupo de apoiadores, em 2010. A decisão baseou-se na convicção de que uma formação antroposófica de qualidade deve ser acessível independentemente das condições financeiras.

Transformação em Todos os Níveis

Os depoimentos de quem recebeu a bolsa falam por si. “O apoio para essa formação é um reconhecimento do direito de acesso à educação Waldorf”, afirma um participante da formação de professores Waldorf no Centro de Formação Intamorés. “Significa que pessoas com poucos recursos financeiros também podem escolher os ensinamentos de Rudolf Steiner como um caminho para seu próprio desenvolvimento espiritual.”

Para muitos beneficiários, o impacto vai muito além da qualificação profissional. “A formação é uma verdadeira jornada de transformação — pessoal, artística e pedagógica”, relata um estudante do programa de pós-graduação em arte na educação Waldorf da Faculdade Rudolf Steiner.

Outro participante, que frequenta um curso de formação para professores do ensino fundamental, descreve sua experiência assim: “A cada etapa adquiro conhecimentos que transformam minha maneira de ver o mundo e fortalecem meu trabalho como educador. Espero que cada vez mais pessoas possam trilhar caminhos de formação tão poderosos quanto esse.”

Um Modelo com Futuro

Ao longo de dezoito anos, o Fundo de Bolsas demonstrou que a educação antroposófica não é um privilégio.

Em um país marcado por profundas desigualdades sociais como o Brasil, esse trabalho assume um significado ainda maior. O fundo permite que professores Waldorf e terapeutas qualificados atuem exatamente onde são mais necessários: em bairros urbanos vulneráveis, em regiões rurais, em escolas públicas e em projetos sociais.

O compromisso do INSTITUTO MAHLE não apenas garante a continuidade do programa, como também envia um sinal importante: a educação antroposófica merece apoio social amplo, para além do próprio movimento antroposófico. Trata-se de uma contribuição para a justiça educacional e para a melhoria das condições de vida em um dos países mais populosos do mundo.





Educação & Aprendizagem

Pós-graduação em Educação Comunitária: Mainumby

O Brasil é um país de grandes contrastes: figura em 5º lugar no ranking de maior economia mundial, é considerado o território com a maior diversidade de biomas do mundo - seis biomas terrestres principais e três grandes ecossistemas marinhos, abrigando mais de 10% das espécies do mundo -, e tem uma cultura riquíssima, que se originou a partir do encontro entre muitos povos e seus diferentes modos de expressão; por outro lado, grande parte da população não tem acesso a condições básicas para uma vida digna: saúde, educação, cuidado e bem estar.

A Faculdade Rudolf Steiner foi fundada em 2017 com a missão de ser um centro de referência na área educacional. É a única Faculdade antroposófica da América Latina.

Há tempos é sabido o que explica esse paradoxo: a desigualdade social; para ser mais específico, o país ocupa o 6º lugar no ranking, segundo o último relatório da ONU. Alguns relatórios recentes chegaram a apontar o Brasil como o país com a pior desigualdade do mundo em alguns recortes.

Apesar de ter havido períodos de pequena melhora nos indicadores de desigualdade, a estrutura social e econômica do Brasil mantém um padrão: a maioria da população vive de maneira precária e sem acesso a bens básicos enquanto poucos desfrutam de uma estrutura de abundância e privilégios.

Na contramão dessa desesperança, em meados da década de 90, a sociedade civil brasileira se uniu fortemente para garantir aquilo que o estado não conseguia prover e lutar pelos direitos de minorias. Foi assim que os projetos comunitários e sociais ganharam protagonismo e importância, sobretudo nas periferias das cidades.

Dados de 2023 apontam que há cerca de 880 mil organizações da sociedade civil registradas em todo o país, isso considerando somente aquelas que estão formalizadas.

À frente desses projetos estão os educadores sociais, agentes fundamentais que desempenham múltiplas funções (professores, psicólogos, conselheiros), e que, por vezes, são os únicos pontos de apoio de quem vive na escassez.

Muitos deles são moradores das próprias comunidades onde os projetos estão inseridos e acabam aprendendo a serem educadores na prática, a partir da experiência de vida, da convivência diária e do conhecimento profundo da realidade local. Poucos tiveram acesso à formação ou capacitação profissional que os ajudasse a lidar com as questões complexas com que se deparam cotidianamente.

Da parceria à formação

Este é um curso inovador em muitos sentidos.

Cristina Velásquez

Foi pensando nesses educadores que a Faculdade Rudolf Steiner iniciou em 2024 uma pós-graduação em parceria com Associação Comunitária Monte Azul, que atua na periferia da cidade de São Paulo desde 1979. Baseado na experiência de dez anos do projeto Mainumby, desenvolvido pela Monte Azul, o curso pretende instrumentalizar os estudantes para que sejam capazes de atuar como agentes da transformação social, a partir dos fundamentos da Antroposofia.

“Este é um curso inovador em muitos sentidos: no formato com vivências imersivas, na parceria entre uma instituição de ensino superior e um projeto social, na maneira como foi pensada a sustentabilidade financeira, no diálogo entre a Antroposofia e educadores brasileiros, como Paulo Freire”. Cristina Velásquez, diretora da Faculdade Rudolf Steiner.

A fraternidade econômica

Um dos desafios iniciais do curso foi encontrar maneiras de viabilizá-lo economicamente, isto porque, quase todos estudantes interessados nesta formação recebem salários muito abaixo de suas necessidades, não tendo condições de arcar com o custo real dele. Com o apoio do INSTITUTO MAHLE foi possível oferecer a formação a um custo acessível e de acordo com as possibilidades de cada estudante. Na prática isso se deu da seguinte maneira: foram apresentados aos estudantes todos os custos do curso e o apoio recebido, resultando um valor que precisaria ser coberto por eles. Sem julgamentos ou comprovações, cada estudante indicou o valor que poderia contribuir mensalmente, número que variou de R$50 a R$500, chegando-se assim ao valor necessário.

É importante mencionar que essa forma de contribuição fraterna tem sido aplicada por outras instituições em outros contextos no Brasil e tem resultado na difusão do conhecimento antroposófico para pessoas e lugares que até então nunca tinham tido acesso a ele.

Na língua indígena guarani, Mainumby significa "colibri" (o beija-flor), ave que possui grande importância cultural para os povos guaranis, sendo considerada sagrada em algumas tradições.

O diálogo entre a teoria e a prática

Especialmente neste curso, a Faculdade acreditava que era preciso trazer a fundamentação teórica e também dialogar com os saberes práticos desses estudantes que tinham anos de experiência, mas que chegavam muitas vezes pela primeira vez a uma instituição de nível superior. Do encontro entre teoria e prática, onde os saberes pudessem conviver, um novo campo de aprendizagem poderia surgir criando algo novo. Essa era a tese da equipe de coordenadores e que se mostrou verdadeira.

“Nossa proposta é sempre olhar para a prática desses educadores e valorizar aquilo que eles trazem e, a partir daí, dialogar com a contemporaneidade dos temas que estão sendo discutidos do mundo e fazer a análise de contextos”.

Nesse sentido, discute-se muito ao longo de todo curso a história do Brasil, a formação do povo, as raízes das questões sociais que se apresentam no país e que esses educadores se deparam cotidianamente em suas comunidades.

A alta taxa de negros e indígenas no curso é um avanço significativo contra a exclusão histórica no ensino superior, dando ao título um significado mais amplo de conquista.

Encerramento de um ciclo, início de outro

Esta primeira turma do curso de pós-graduação em educação comunitária se formou no final de 2025 e, sem dúvida, deixará um importante legado tanto para quem esteve envolvido com ela, docentes e estudantes, quanto para as instituições que se juntaram para realizá-la.

A partir desta experiência, a equipe de coordenação começa a articular maneiras de expandir essa formação com novos arranjos e formatos, impactando mais pessoas e organizações no Brasil.



Educação & Aprendizagem

Onde a Terra Aprende a Respirar Novamente

Aninhada entre as rochas de granito do Zimbábue, a Aldeia Kufunda trabalha para integrar a agricultura biodinâmica à paisagem local — criando uma rede de conhecimentos que se estende para além dos limites de uma única fazenda, à medida que constrói uma rede de agricultores dispostos a experimentar algo diferente.

Quando Maaianne Knuth fala sobre a terra, seus olhos se iluminam. “A terra tem a sua própria sabedoria”, diz a fundadora da Aldeia Kufunda, esfarelando entre os dedos um punhado de solo rico. “Nós simplesmente precisamos aprender a escutá-la.” O que começou como um experimento há mais de duas décadas continua a se desdobrar. A comunidade aprende como as práticas biodinâmicas podem apoiar os solos, as pessoas e a vida comunitária.

Quando uma Fazenda se Torna uma Sala de Aula

A vinte e cinco quilômetros de Harare, capital do Zimbábue, a Aldeia Kufunda ocupa 50 hectares. Desde 2019, o projeto assumiu o compromisso com métodos biodinâmicos, entrelaçando saberes tradicionais africanos com os princípios do cultivo biodinâmico.

Em abril de 2025, Kufunda sediou um Festival de Aprendizagem de cinco dias, que incluiu um módulo especial para agricultores colaboradores. Trinta e quatro agricultores zimbabuanos viajaram até Kufunda. “Decidimos trazer as pessoas até aqui para que pudessem aprender a partir do que já foi estabelecido”, explica Knuth. “E para fortalecer a rede de pessoas que trabalham diretamente com agricultores em suas próprias comunidades.”

Quando o Solo se Torna Revelação

Pela manhã, os participantes — como parte da conferência completa, que reuniu quase 100 pessoas — aprenderam sobre construção comunitária participativa inspirada na antroposofia, ao mesmo tempo em que praticavam juntos euritmia social e arte social.

Todas as tardes, os participantes do módulo agrícola trabalharam na melhoria do solo — mas, em vez de teoria abstrata, vivenciaram em primeira mão o poder transformador dos preparados biodinâmicos. Por meio de testes, eles compararam o composto, o preparado de esterco em chifre 500, o Cow Pat Pit (CPP) e o solo não tratado. “Isso lhes deu — e até a nós — uma percepção profunda de quão eficaz esse trabalho realmente é”, registra o relatório da equipe do projeto.

Os agricultores ficaram profundamente inspirados por sua própria capacidade de aprender com a terra

Maaianne Knuth

Particularmente marcante foi o trabalho com o garfo de escavação profunda (broad fork), uma ferramenta de aeração do solo importada de Israel. Os agricultores aprenderam a preparar os compostos biodinâmicos, observar a vida do solo e avaliar a vitalidade da terra por meio de observação atenta. “Os agricultores ficaram profundamente inspirados por sua própria capacidade de aprender com a terra”, reflete Knuth sobre a experiência.

Uma Rede que Floresce por Meio da Troca Digital

Este seminário de uma semana fortaleceu a rede local de agricultores comprometidos em trilhar o caminho da agricultura biodinâmica. Um grupo de WhatsApp muito ativo agora conecta agricultores de todo o Zimbábue, compartilhando o calendário semanal biodinâmico de plantio e funcionando como um espaço vivo de troca. Fotografias, perguntas e observações de diferentes regiões criam uma sala de aula digital que transcende as limitações da distância física.

Dos 34 participantes que estiveram no encontro, oito apoiam ativamente grupos locais em suas comunidades. Encontros locais regulares de acompanhamento aprofundam a compreensão sobre a saúde do solo, ao mesmo tempo em que exploram conhecimentos tradicionais sobre controle de pragas, sistemas de esterco e plantio consorciado.

Construindo Bases para o Cresciment

O apoio da Fundação MAHLE à Kufunda vai muito além da iniciativa biodinâmica atual. Desde 2019, a fundação tem sido uma parceira constante no desenvolvimento da aldeia. Apoiando a construção de prédios escolares e o transporte de estudantes em 2020, além da formação de agricultores e do fortalecimento de capacidades nos últimos anos. Essa parceria contínua reflete uma abordagem holística do desenvolvimento comunitário, que reconhece como educação, infraestrutura e inovação agrícola caminham juntas.

Hoje, essa colaboração continua a dar frutos. Sistemas de irrigação por gotejamento agora atendem a agrofloresta e a horta, enquanto uma nova estufa foi construída em 2025 com apoio do projeto Make It Grow. O investimento da Fundação tanto em infraestrutura de irrigação quanto em educação de agricultores transformou esse espaço em um polo de aprendizagem e cultivo — um lugar onde conhecimento e habilidades práticas podem florescer juntos.

Aprendendo com os Pioneiros

Estamos absolutamente felizes por finalmente termos nosso próprio gado como parte do organismo da fazenda.

Maaianne Knuth

A jornada de aprendizagem também levou a equipe de Kufunda ao Africa Centre for Holistic Management (ACHM), em Victoria Falls, onde é praticado o trabalho pioneiro de Allan Savory em manejo sustentável da terra. O ACHM demonstra como o uso de rebanhos pode restaurar a terra, a água e a vida selvagem. “Anos atrás, realizamos testes iniciais com enorme sucesso, mas foi difícil dar continuidade sem termos nosso próprio rebanho”, reflete Knuth.

Um marco importante, viabilizado com o apoio da Mahle, foi a aquisição local de cinco cabeças de gado. “Estamos absolutamente felizes por finalmente termos nosso próprio gado como parte do organismo da fazenda”, relata a equipe. O grupo acaba de concluir a construção de um curral para o manejo rotacionado do pastoreio — trazendo também vacas de vizinhos como parte do trabalho coletivo com o pastoreio rotacionado. Um touro da raça Swiss Brown ampliará a diversidade genética do rebanho regional, ao mesmo tempo em que melhora a qualidade do leite.

Desafios como Mestres

Nem tudo ocorreu conforme o planejado — e isso se mostrou uma lição valiosa em si. O esquema inicialmente previsto de cestas de hortaliças revelou-se mais difícil de implementar do que o esperado: muitas pessoas tiveram dificuldade em compreender o conceito de se tornarem membros de um sistema de agricultura apoiada pela comunidade, preferindo fazer pedidos apenas de forma ocasional. Em alguns momentos, havia produção excedente sem venda; em outros, tanto os mercados locais quanto os urbanos eram bem abastecidos.

A solução veio com uma mudança de perspectiva: Kufunda agora prioriza o abastecimento de sua própria comunidade e das famílias do entorno. O excedente é destinado a clientes urbanos, que são incentivados a se tornar membros da fazenda e a visitá-la ocasionalmente. “Isso está muito mais alinhado com o que estamos tentando construir aqui”, afirma Knuth.

Uma Rede Viva Cria Raízes

When farmers begin observing with curiosity and gathering for shared learning and reflection, their practice naturally deepens

O sucesso pode ser medido em números: a qualidade do solo melhorou de forma significativa, e uma rede ativa e crescente de mais de 70 agricultores compartilha conhecimento e experiência. No entanto, a verdadeira transformação vai além. “Quando os agricultores passam a observar com curiosidade e a se reunir para aprendizagem e reflexão compartilhadas, sua prática se aprofunda naturalmente”, conclui a equipe do projeto.

Temos cultivado parcerias com iniciativas como a Soft Foot Alliance em Hwange, o PORET Trust em Chimanimani e a Integral Kumusha em Buhera. Por meio da colaboração com esses núcleos já muito ativos, o impulso biodinâmico pode se espalhar e crescer de maneira mais sustentável do que se Kufunda assumisse toda a responsabilidade sozinha.

Olhando para o Futuro

“Este ano nos trouxe para uma relação mais consistente e intensa com os agricultores, ao mesmo tempo em que fortalecemos nosso próprio organismo agrícola, a partir do qual outros podem aprender”, reflete Knuth com gratidão. Os próximos passos já estão delineados: aprofundar o pastoreio rotacionado com rebanhos vizinhos, expandir o cultivo de plantas para preparados, hortaliças e grãos locais, e reestruturar as relações com os clientes.

O que acontece em Kufunda representa mais do que um projeto agrícola — é a prova viva de que o desenvolvimento sustentável precisa crescer de dentro para fora, enraizado no conhecimento local e sustentado por uma comunidade disposta a aprender em conjunto. Em uma era de desafios globais, essa pequena aldeia zimbabuana aponta para um caminho possível, aprendendo silenciosamente o que significa cuidar da terra e uns dos outros.

Educação & Aprendizagem

Um Direito ao Chegar

Desde 2015, a Alemanha tem sido um país de acolhida para centenas de milhares de pessoas que fogem de guerras, perseguições e dificuldades em seus países de origem. Para que essas pessoas possam refazer suas vidas em um novo país, não basta que tenham acesso a um curso de idioma ou aos órgãos públicos para resolver questões burocráticas, é preciso ir além. Mas como fazer isso? A Escola Waldorf Livre de Kassel vem demonstrando, ao longo de uma década, que a escola pode ser um verdadeiro espaço de proteção e desenvolvimento pessoal quando conduzida da maneira adequada. Este é o retrato de um projeto que começou com perseverança, com a flexibilidade própria da pedagogia Waldorf e com uma crença inabalável no indivíduo - e que, dez anos depois, continua deixando sua marca.

Não foi uma conferência, uma diretriz ministerial ou uma resolução estratégica do governo que colocou tudo em movimento, foi uma aluna do 11º ano. Ela havia realizado seu estágio social em um alojamento para refugiados em Wolfhagen, a quarenta quilômetros de Kassel, e voltou com uma observação simples: “Os jovens de lá precisam de escola.”

Ela levou essa observação a Johannes Hüttich, professor de matemática do Ensino Médio e uma das figuras mais engajadas da Escola Waldorf Livre de Kassel, e foi ouvida. O resto é história... ao menos em Kassel.

No ano letivo de 2015/16, coincidindo com a grande onda de imigração para a Europa, essa escola Waldorf abriu sua primeira turma internacional. Foi, ao lado da Escola Rudolf Steiner em Berlin-Dahlem, uma das primeiras escolas Waldorf a dar esse passo. Dez anos depois, o projeto segue vivo e em expansão.

A Escola-Plataforma: Flexibilidade como Princípio

O que diferencia o modelo da escola de Kassel de muitas abordagens comparáveis é sua arquitetura subjacente, a chamada Plattformschule (escola-plataforma). O conceito é tão simples quanto engenhoso. Em vez de inserir imediatamente os alunos refugiados em turmas regulares já existentes, ou de mantê-los indefinidamente em estruturas separadas, a escola oferece uma organização fluida com diferentes ambientes e formas de aprendizagem. “Em uma plataforma, você pode mover os estudantes de acordo com suas necessidades”, explica Hüttich, o professor de matemática. “Em outros sistemas escolares eles precisam sair no momento em que algo não funciona. Aqui, não.”

A plataforma se sustenta sobre três pilares: o estudo intensivo na 10i (uma turma internacional voltada para estudantes do 9º e 10º anos); a integração gradual em turmas regulares para aqueles que conseguem acompanhar academicamente; e a formação profissional em uma das quatro oficinas do Dualwerk - metalurgia, marcenaria, costura e instalação elétrica. Entre esses pilares, toda transição imaginável é possível. Um estduante que começa em uma oficina e depois demonstra potencial acadêmico pode mudar de percurso. Outro, que não consegue acompanhar uma turma regular, pode retornar e continuar ali. “Temos a escola profissionalizante dentro de casa”, diz Hüttich, ou seja, os alunos nunca precisam deixar completamente a escola, mesmo quando o foco de seus estudos muda.

A Escola como Terreno Seguro: O que Significa Chegar

Um jovem que chega à Alemanha vindo da Síria, Afeganistão, Ucrânia ou Somália não chega apenas com uma mochila cheia de experiências educacionais desconhecidas. Muitas vezes, carrega medo, memórias traumáticas, privação de sono, e a pressão de ganhar dinheiro o mais rápido possível para sustentar a família que ficou no país de origem. A sensação de ser estrangeiro está sempre presente e, com ela, a ansiedade: Vou conseguir me adaptar aqui? Tenho permissão para ficar? Sou bom o suficiente? Vou fazer amigos?

A escola Waldorf de Kassel desenvolveu uma resposta pedagógica clara: chama isso de Schutzraum Schule (a escola como um espaço seguro). Isso não significa apenas um prédio que acolhe, mas uma postura: a certeza de que, ali, há tempo para chegar. “Os jovens sempre precisam de cerca de nove meses para se situar e construir confiança”, afirma Hüttich. Esse tempo precisa, necessariamente, ser considerado. A refeição oferecida no refeitório da escola é, muitas vezes, a única oportunidade para esses jovens se alimentarem no dia, então ela faz parte desse espaço seguro. Assim como Rashid, membro da equipe escolar, nascido na Argélia, que fala árabe com os alunos recém-chegados e suas famílias. Pedagogos sociais, participantes de programas de voluntariado e jovens em ano de serviço voluntário complementam a equipe docente. Sem o compromisso contínuo do núcleo central composto por Gädeke-Mothes, Olga Solomenko-Zech, Pejman Behin e Johannes Hüttich, a continuidade do projeto simplesmente não seria possível.

O envolvimento das famílias representou um desafio particular para a equipe de Kassel no início. A pedagogia Waldorf tradicionalmente se apoia em três pilares: docentes, famílias e estudantes. “Essa foi uma questão realmente fundamental no começo: podemos fazer isso quando não há interesse das famílias, ou quando, em muitos casos, não há familiares presentes?”. Muitos dos jovens refugiados chegaram sozinhos, suas famílias ficaram em seus países de origem ou dispersas ao longo das rotas migratórias. A resposta que surgiu ao longo dos anos foi a seguinte: uma equipe coesa, comprometida e estável, trabalhando em conjunto com as estruturas de apoio dos serviços de assistência à juventude, pode sim assumir grande parte do papel que normalmente caberia às famílias, desde que todos estejam alinhados na mesma direção. “Só conseguimos fazer isso porque não somos lutadores solitários, mas uma equipe.”

Dez Anos, 180 Certificados Escolares, 40 Diplomas Profissionais

Os números falam por si. Desde a abertura de sua primeira turma internacional, a Escola Waldorf Livre de Kassel, em conjunto com o Dualwerk, acolheu 210 jovens refugiados vindos do Afeganistão, Argélia, Eritreia, Somália, Síria, Ucrânia, entre outros países. Até 2025, a escola havia concedido 180 certificados de conclusão do Ensino Médio, 10 diplomas para o ingresso à universidade e de ensino técnico, além de 40 diplomas profissionais nas áreas de marcenaria, metalurgia, costura e instalação elétrica. Cerca de 85% dos alunos encontraram um caminho bem-sucedido no sistema educacional e de formação profissional alemão. No ano letivo de 2025/26, 49 jovens de sete países frequentam diferentes turmas e oficinas da escola.

Por trás de cada um desses números há histórias individuais: 5 alunos da turma de formandos de 2025/26 concluíram o Ensino Médio e seguiram para o 11º ano ou para escolas técnicas especializadas; 2 iniciaram aprendizagens na oficina de elétrica. Jovens ucranianos que chegaram no meio do ano, há três anos, agora enfrentam a transição para o 12º ano. Alguns estão seguindo formação profissional nas oficinas; 3 estão se preparando para exame de conclusão do Ensino Médio, garantindo o ingresso à universidade. Para cada uma dessas trajetórias, a escola-plataforma encontrou uma solução individual.

A abordagem Waldorf: para além da integração

O que distingue o trabalho em Kassel de um simples programa de apoio linguístico é sua ambição pedagógica. Desde o início, a proposta foi maior do que o desenvolvimento de habilidades linguísticas, a obtenção de certificados escolares ou qualificações profissionais. “Não queríamos apenas integrar aqueles que chegam aqui ao que já existe, queríamos vê-los como indivíduos”, afirma Hüttich. “A integração é insuficiente quando se ignora que cada pessoa carrega em si seus próprios objetivos e possibilidades biográficas.”

A amplitude do currículo Waldorf se revela uma vantagem particular nesse contexto. Enquanto as escolas públicas concentram-se predominantemente em disciplinas acadêmicas, os alunos internacionais em Kassel também têm contato com euritmia, projetos teatrais, desenho de formas, geometria e trabalhos manuais. A geometria, em especial - uma área pela qual Hüttich, como professor de matemática, tem grande entusiasmo - abre um caminho de aprendizagem que não exige fluência em alemão: “É possível introduzir as pessoas ao pensamento espacial e ao pensamento imaginativo sem que elas precisem dominar a língua para vivenciar o sucesso.” Jovens que, em poucos meses, produzem desenhos geométricos impressionantes passam a se perceber como capazes, e isso se torna uma base sobre a qual todo o resto pode ser construído. Enriquecer esse horizonte imaginativo ao longo da trajetória educacional dos jovens: é isso que, em essência, dez anos de trabalho educacional internacional em Kassel vêm buscando alcançar.

Uma Segunda Geração, e Novos Desafios

O projeto evoluiu continuamente ao longo de seus dez anos de existência. Nos primeiros anos eram principalmente jovens desacompanhados, encaminhados diretamente por órgãos de assistência à juventude e serviços de tutela, que chegavam à escola. Hoje, um novo grupo se soma a eles: os filhos de famílias que vieram para a Alemanha em 2015 ou 2016. Esses jovens muitas vezes cresceram em casa falando a língua de seus pais, têm domínio insuficiente do alemão e enfrentam dificuldades para acompanhar as exigências das escolas de Ensino Médio regulares. “A segunda geração frequentemente aspira a qualificações mais altas por ter visto como a vida foi difícil para seus pais sem elas”, afirma Hüttich. A escola Waldorf também oferece um caminho para eles.

O que se desenvolveu em Kassel não é um modelo acabado que possa ser reproduzido a partir de um molde. Trata-se de uma estrutura viva, que exige continuamente adaptação, coragem e reflexão. Ainda assim, demonstra que a escola pode ser muito mais do que um espaço de transmissão de conhecimento. Pode ser um lugar onde pessoas que perderam tudo reencontram aquilo que é mais essencial: a confiança em si mesmas e a esperança em um futuro aberto, em um mundo multicultural.

Esse trabalho é apoiado por uma rede de fundações: a Bürgerstiftung para a cidade e o distrito de Kassel, a GLS Treuhand e.V., a Heidehof Stiftung GmbH, a Stiftung Hübner und Kennedy GmbH, a MAHLE FOUNDATION e a Software AG – Stiftung.

Educação & Aprendizagem

OROBORO

Sete anos. Esse foi o tempo que levou entre o documentário OROBORO ser filmado até a sua estreia nos cinemas brasileiros, em março de 2025. Foram sete semanas em circuito comercial com exibição em sete cidades diferentes, totalizando mais de mil espectadores — um feito extraordinário para um documentário nacional independente, com baixo orçamento e que trata de um tema pouco familiar ao público em geral: a arte como elemento formador no desenvolvimento do ser humano.

O documentário OROBORO, dirigido pelo cineasta Pablo Lobato, acompanha o processo teatral de duas turmas (oitavo e décimo segundo anos) da escola Waldorf Rudolf Steiner de Minas Gerais, localizada na cidade de Belo Horizonte. Entre os anos de 2018 e 2020 o cineasta documentou o trabalho artístico que integra corpo, arte e presença — elementos fundamentais para a saúde integral dos jovens e que é parte do currículo das escolas Waldorf no Brasil. Além das vivências coletivas dos jovens em todos os processos que envolvem a realização de uma peça de teatro, o filme registra também o esforço de uma turma para manter viva a tradição teatral do oitavo ano em plena pandemia.

"OROBORO" – Figura mítica geralmente representado por uma serpente ou dragão que morde a própria cauda, formando um círculo. Representa a ideia de eternidade, ciclo de vida, renovação e transformação. O nome do filme é inspirado na habilidade de Guimarães Rosa em caracterizar forças opostas, sem separar ou polarizar: A vida e a morte; O bem e o mal; O divino e o profano; entre tantas outras que fazem parte da vida humana.

Ideia inicial do filme

Os ensaios da peça “Grande Serão: Veredas”, inspirada no livro de mesmo nome do autor João Guimarães Rosa, escolhida pelos estudantes do décimo segundo ano, já estavam avançados quando Pablo recebeu o pedido de ajuda para filmar os últimos ensaios e as apresentações que aconteceriam dali a alguns dias. Em virtude da dificuldade de encontrar um profissional que se dispusesse a fazer este trabalho pelo valor que tinham disponível, só restava aos estudantes recorrer a uma pessoa da comunidade escolar que tivesse essa expertise.

“Eu lembro até hoje desse dia. Eu saindo do ateliê onde estava trabalhando e recebendo a ligação de um aluno.... respondi que precisava ver para entender como gravar, que equipamento que precisaria, enfim. Ele então me disse que iriam ensaiar no dia seguinte e me convidou para assistir”, relata Pablo.

Já neste ensaio, Pablo decidiu levar sua câmera com o intuito de fazer alguns estudos. “Quando eu cheguei e vi aquilo, fiquei completamente encantado... foi muito forte. Fiquei muito impressionado com várias coisas: desde a capacidade de atuação ao modo como eles se relacionavam diante de uma tarefa tão difícil. Demonstravam um respeito e uma escuta uns com os outros que me capturou”.

Nesse primeiro dia ele intuiu que o que acontecia ali poderia se transformar em um filme, mas guardou essa ideia para si para não projetar essa vontade nos jovens e acabar gerando ansiedade. “Essa turma já era uma turma que me deixava de orelha em pé... eles eram diferentes, com uma diversidade muito grande: umas com maior poder aquisitivo, outras menos, uma pessoa surda, diferentes orientações sexuais, raças... tinha uma qualidade rara, uma sala com uma constelação muito bonita. E então, quando eles escolheram encenar “O Grande Sertão” eu falei: Opa! Lá vem coisa!”

Sobre o Diretor

Pablo Lobato (Bom Despacho, 1976) é artista visual e cineasta. Seu primeiro longa-metragem, Acidente, foi exibido em festivais como Sundance, Locarno e Guadalajara, onde recebeu o prêmio de Melhor Documentário Ibero-americano. Em 2009, recebeu a Bolsa John Simon Guggenheim, um reconhecimento pela qualidade e consistência de sua obra. Após um período de intensa dedicação às artes visuais, com exposições em instituições como o MoMA (NY), o New Museum (NY) e o Museo Tamayo (Cidade do México), Pablo retorna ao cinema com Oroboro.

O mergulho no cotidiano dos jovens e união de duas peças

A escolha feita pelos estudantes não foi algo tranquilo para parte dos docentes da escola, que se recearam com a complexidade de transformar um dos maiores livros brasileiros, em dramaturgia. Ainda assim, os jovens não desistiram. O desejo de fazerem essa peça e de sustentarem a escolha diante da dúvida dos adultos foi uma das coisas que chamou a atenção de Pablo logo que a notícia se espalhou pela escola. Essa determinação dos jovens e o que ele presenciou no primeiro ensaio o fez mudar seus rumos profissionais e mergulhar de cabeça no projeto de filmagem. Assim, no ano seguinte, com o material em mãos, apresentou a proposta de fazer um filme aos estudantes, familiares e escola.

Esse processo levou algum tempo. De um lado as famílias precisavam autorizar a participação de seus filhos, já que muitos não tinham completado 18 anos, de outro, a escola se mostrava receosa de expor um processo pedagógico tão íntimo e particular. Foram muitas conversas até que todos compreendessem a importância de mostrar ao mundo a beleza e a transformação que a arte é capaz de gerar nos jovens.

“Foi ali que eles abriram a guarda e me deixaram filmar também dentro da sala de aula, estabelecendo uma relação de confiança que me permitiu filmar o dia a dia da turma nas demais atividades pedagógicas até o final do ano letivo”.

Enquanto se dedicava à produção do filme, o mundo foi atravessado pela pandemia da Covid 19. O professor do então oitavo ano, inconformado que seus alunos perderiam a experiência teatral, propôs que a turma se retirasse da cidade por 3 semanas para vivenciarem a peça escolhida por ele – “A Flauta Mágica”, de Mozart. Com a câmera a postos, Pablo acompanhou todo o processo, dos ensaios às apresentações, e percebeu que havia ali a possibilidade de unir no filme as duas experiências teatrais – a do oitavo e a do décimo segundo ano.

E foi assim que, com o apoio de uma produtora independente e de diversas pessoas que acreditaram no potencial do filme, ele estreou nos cinemas brasileiros, em março de 2025.

Foi um filme que nasceu sem projeto, sem planejamento. Ele foi encontrando parcerias, contaminando também colegas meus do cinema para quem eu pedi apoio e todos perceberam que tinha uma coisa diferente ali no ar. Desde então que o filme vem encontrando parceiros de um modo meio mágico... com uma força que vai abrindo os caminhos.”

A busca por novos parceiros e públicos

Foi assim que o projeto chegou ao INSTITUTO MAHLE: esperançoso de conseguir levar o filme para um público que historicamente não tem acesso à cultura, seja porque mora distante dos grandes centros, ou então porque a condição econômica não permite. Com o apoio do INSTITUTO, o filme pôde voltar a circular por 18 cidades ao longo de quatro meses, sendo exibido tanto em salas de cinemas comerciais quanto em sessões especiais com escolas Waldorf e escolas públicas do Estado.

“Agora a gente quer continuar com essa experiência de levar o filme para outros públicos, pessoas que não conhecem Antroposofia. Conscientemente tomamos um certo cuidado para não ser um filme didático, que explicasse ao público o que estava acontecendo. Queríamos que o público enxergasse a potência que é a relação entre a arte e formação humana, para além da teoria”.

Em julho de 2025, a convite do Goetheanum, o filme foi exibido durante o Congresso Alma Humana, no teatro principal, como parte da programação oficial.

Trailer oficial:

Educação & Aprendizagem

Quando o Ponto Descobre o Mundo Novamente

A nova exposição interativa “BUNT”, no Junges Schloss, em Stuttgart, mostra como cores, formas e criatividade inspiram as crianças a aprender brincando.

Um pequeno ponto se depara com um trilho misterioso que cintila em todas as cores do arco-íris, despertando instantaneamente sua curiosidade. O que se segue é uma jornada de descobertas por um mundo repleto de cores, formas e infinitas possibilidades criativas — uma experiência que visitantes de todas as idades puderam vivenciar no Junges Schloss, em Stuttgart, desde 18 de outubro de 2025.

Mais do que Apenas Cor

“BUNT” é a décima segunda exposição interativa do museu infantil dentro do Landesmuseum Württemberg — e um presente especial de aniversário. O Junges Schloss celebrou em 2025 seus 15 anos e pode olhar para trás com orgulho para uma impressionante história de sucesso: cerca de 700 mil visitantes, crianças e adultos, exploraram as exposições interativas desde a inauguração, em 2010.

Com ‘BUNT’, incentivamos as crianças a criar ativamente e a utilizar o espaço como um campo de experimentaçã

Ida Schneider

A exposição, com curadoria de Ida Schneider e Christoph Fricker, convida crianças de quatro a dez anos a descobrir juntas o que pode surgir a partir de um simples ponto. “Com ‘BUNT’, incentivamos as crianças a criar ativamente e a utilizar o espaço como um campo de experimentação”, explica a curadora Ida Schneider. “Por meio das estações práticas, dos objetos originais e da história do Ponto, as crianças aguçam sua percepção do mundo ao redor.”

Um Banquete para Todos os Sentidos

A exposição faz jus ao seu nome: em diversas estações, os jovens visitantes podem misturar cores do arco-íris, fazer linhas dançarem, criar padrões ou experimentar grandes blocos de construção. Criar ritmos em conjunto também faz parte da experiência, assim como explorar diferentes materiais e texturas. “As crianças veem, ouvem, cheiram e tocam — descobrindo que ‘colorido’ significa muito mais do que apenas cor”, descreve o chefe de departamento Christoph Fricker.

As crianças veem, ouvem, cheiram e tocam — descobrindo que ‘colorido’ significa muito mais do que apenas cor

Christoph Fricker

Como em todos os projetos do Junges Schloss, “BUNT” foi desenvolvida em conjunto com um conselho consultivo de crianças. Esses jovens especialistas contribuíram com ideias, discutiram conceitos com a equipe curatorial e ajudaram a desenvolver estações criativas, como as multissensoriais “nuvens de cor” e experiências sonoras “coloridas”. Essa abordagem participativa garante que a exposição seja verdadeiramente concebida a partir da perspectiva das crianças.

Tesouros do Acervo

Um destaque especial da exposição são os vasos de vidro intensamente coloridos do século XX, que chegaram ao Landesmuseum há 25 anos como doação de um colecionador particular de Laupheim — parte de uma coleção com mais de mil peças. A seleção seguiu um princípio claro: cor! Do vermelho vibrante ao azul profundo e ao amarelo radiante, os objetos exibem todo o espectro do arco-íris. Etiquetas com inscrições como “Murano”, “Made in Portugal” ou “WMF – Germany” contam pequenas histórias sobre a origem e a época das peças.

“Esses vasos de vidro são como embaixadores coloridos de diferentes países e épocas”, entusiasma-se a Dra. Maaike van Rijn, que trabalhou ao lado de Ida Schneider na apresentação dos objetos. “As crianças podem ver como o design pode ser diverso — desde vasos simples do cotidiano até peças extravagantes de designers das décadas de 1940 a 1960.”

Os objetos de vidro são complementados por outros itens do acervo do Landesmuseum: cerâmicas ricamente decoradas, com linhas e marcas em forma de pontos do período Neolítico, mostram que seres humanos já utilizavam linhas e pontos para moldar seu ambiente há milhares de anos. Um serviço de chá em metal desenhado por Christopher Dresser, um dos primeiros designers industriais, encanta por sua forma esférica consistente. Um recipiente de vidro egípcio com mais de 3.000 anos, em forma de romã, exemplifica a inspiração retirada da diversidade colorida da natureza — para citar apenas alguns exemplos.

Inclusão como Prática Padrão

É especialmente importante para a equipe do Junges Schloss que todas as crianças possam vivenciar a exposição. Estações para ouvir, ver e sentir, vídeos em Língua Alemã de Sinais e textos em áudio tornam “BUNT” acessível a todos. “Diversidade e inclusão não são frases vazias para nós, mas uma prática vivida”, enfatiza Fricker.

Diversidade e inclusão não são frases vazias para nós, mas uma prática vivida

Christoph Fricker

“Queremos isso e precisamos fazer isso. Afinal, as crianças têm esse direito. Os direitos da criança desempenham um papel importante para nós como museu infantil, mas também especificamente dentro da exposição. Relacionamos cada área temática a um direito da criança selecionado — como já fizemos em exposições anteriores do Junges Schloss”, acrescenta Schneider.

Gratidão aos Apoiadores de Longa Data

A realização da exposição não teria sido possível sem o apoio de patrocinadores e apoiadores fiéis. Em especial, a Baden-Württemberg Stiftung, que viabilizou a exposição “BUNT” como presente de aniversário de 15 anos para o museu infantil. “Até mesmo a primeira exposição do museu infantil só foi possível graças a um grande apoio financeiro”, relembra Fricker. “Hoje, 15 anos depois, mal consigo acreditar em quanta paixão e comprometimento de empresas, fundações e muitas pessoas físicas fizeram do Junges Schloss uma instituição permanente.”

A Fundação MAHLE também está entre os apoiadores de longa data do projeto. Seu compromisso permite que arte e cultura não sejam apenas transmitidas de forma teórica às crianças, mas vivenciadas de maneira prática.

Criatividade como Chave para o Mundo

“BUNT” é mais do que uma exposição — é um convite para enxergar o mundo com outros olhos. Quando as crianças misturam cores, exploram formas e desenvolvem projetos criativos juntas, elas aprendem não apenas sobre arte e design. Desenvolvem percepção, criatividade e autoconfiança — habilidades que permanecem relevantes muito além da visita ao museu.

“Idealmente, as crianças encontrarão alegria na diversidade, descobrirão a cor também fora do museu e continuarão a usar sua criatividade com prazer”, resume a curadora Schneider, expressando o desejo da equipe. O mascote Ponto certamente concordaria — pois o rastro colorido de Ponto não termina com a exposição.

A exposição “BUNT” fica em cartaz até 2 de agosto de 2026 no Junges Schloss, em Stuttgart.

Educação & Aprendizagem

A Voz das Pedras

O grupo Buna Eurythmie Ensemble propôs dar voz a um patrimônio cultural esquecido através da euritmia, do violoncelo e da poesia bósnia, em uma turnê pelos Bálcãs que se tornou muito mais do que um projeto artístico.



Tudo começou com uma pergunta. Não com um conceito, nem com um pedido de financiamento, mas com a pergunta: do que o mundo precisa hoje, e como a arte - especialmente onde corre o risco de desaparecer- pode abrir novos caminhos? A partir desse impulso nasceu o Buna Eurythmie Ensemble. Buna é o nome de uma nascente profunda na Bósnia e Herzegovina. E dá nome a um projeto que busca construir pontes: entre pessoas, culturas, passado e presente.

O que nos interessava era o encontro genuíno com um público que estivesse vivenciando a euritmia pela primeira vez.

Aylin Bayboga

A ideia do grupo era viajar para um país onde a euritmia fosse completamente desconhecida. “Não queríamos apenas nos apresentar para um público que já conhecesse a euritmia”, diz Aylin Bayboga, euritmista e cofundadora do grupo. “O que nos interessava era o encontro genuíno com um público que estivesse vivenciando a euritmia pela primeira vez.” O fato de os Bálcãs Ocidentais terem sido escolhidos como destino não foi coincidência: Bayboga tem raízes familiares na Bósnia, fala a língua e sabia que a vida cultural da região havia sido profundamente ferida pelas Guerras na Iugoslávia.

Pedras que Falam

Em uma viagem de pesquisa antes do início dos ensaios, Bayboga comprou livros: contos de fadas, poemas e histórias sobre o país. Na sala de ensaio, o grupo espalhou esse material e encontrou um nome que transformaria completamente os planos iniciais: Mak Mehmedalija Dizdar – o mais importante poeta da Bósnia -, cuja coleção de poemas Kameni Spavač (A Pedra Adormecida) foi publicada em 1966 lhe conferindo reconhecimento muito além de seu país. Seus poemas dão voz aos chamados Stećci: aqueles grandes blocos de pedra talhados à mão espalhados pelos Bálcãs, cujos símbolos – espirais, círculos, cruzes - apontam para uma civilização quase esquecida, a dos bogomilos (grupo cristão gnóstico e dualista, fundado no século X na Bulgária).

“Quando lemos aqueles poemas, primeiro em bósnio, depois em alemão, ficou imediatamente claro: é isso”, lembra Bayboga. “Todo o resto passou para segundo plano.” O que fascinou o grupo em Dizdar foi a qualidade enigmática de suas imagens: serpente, lírio branco, macieira – símbolos que representam algo que resiste à compreensão direta. Seus versos soam como sonhos. O próprio Dizdar descreveu ouvir as pedras como se elas tivessem algo a dizer, como se mantivessem uma relação com os mortos que repousam sob elas.

Os bogomilos, cujo legado é preservado pelos Stećci, foram um movimento cristão medieval de espírito livre: rezavam ao ar livre, rejeitavam as hierarquias eclesiásticas e viviam segundo um rigoroso código ético de paz. Perseguidos tanto pela Igreja Católica quanto pela Ortodoxa, não deixaram quase nenhum registro escrito e a maioria foi destruída. O que restou foram as pedras. E Dizdar lhes deu voz.

Do Ensaio à Turnê

Em agosto de 2024, o conjunto de sete integrantes iniciou os ensaios em Dornach, Stuttgart e Witten em fases intensivas de uma semana ou mais, com encontros regulares online entre esses períodos para manter vivo o impulso comum. A euritmia deu vida à ornamentação das pedras: espirais transformaram-se em formas em movimento; símbolos de lua e sol encontraram seu lugar na coreografia. “Tentamos traduzir em movimento aquilo que se petrificou”, explica Bayboga.

Um feliz acaso resolveu a questão da língua: Vladimir Bogdanovic, violoncelista sérvio e membro do renomado Quarteto Werther e proficiente no idioma, assumiu o papel de recitar os poemas enquanto tocava violoncelo. “Isso acabou sendo a melhor solução possível”, diz Bayboga. “Ele carregou os textos a partir de uma conexão interior genuína.”

Em setembro de 2025, o grupo partiu em dois carros e um ônibus carregado com cenários e figurinos para nove apresentações e oito oficinas em sete cidades. O percurso foi de Lausanne (na Suíça), passando pela Croácia, Bósnia e Herzegovina, seguindo para a Sérvia e retornando.

Salas Lotadas e Tetos Ruídos

A turnê não foi um triunfo, mas uma aventura exaustiva e profundamente comovente. Em alguns lugares, os cartazes nem chegaram a ser afixados; tanto Bayboga e seus colegas quanto pessoas locais percorriam as cidades distribuindo panfletos para divulgar as apresentações pouco antes do início das apresentações. Em um dos teatros, a entrada principal estava fechada havia anos devido ao desabamento do telhado; público e artistas tiveram que entrar pelos fundos. “Isso era um reflexo do tempo”, observa Bayboga com certa ironia. “Dava para ver que a vida ali não estava florescendo.”

Isso era um reflexo do tempo. Dava para ver que a vida ali não estava florescendo.

Aylin Bayboga

E ainda assim, as pessoas vieram. O impacto foi maior onde fizeram uma oficina com estudantes que puderam experimentar a euritmia antes de assistir à apresentação. “Essas foram as noites mais bonitas”, recorda Bayboga. “No início, sempre aquela tensão no salão: o que exatamente eles estão fazendo? E então, ao longo da noite, tudo ia melhorando.”

Após uma apresentação, um espectador descreveu o espetáculo parecia “um sonho”; após uma oficina, um participante observou que não era necessário nem música nem linguagem – talvez a forma mais adequada fosse fazer tudo em silêncio. Era um elogio. Um diretor de teatro na Bósnia mencionou o conceito de “teatro físico” e manifestou interesse em uma possível colaboração.

No Museu Histórico de Sarajevo, onde os Stećci fazem parte da coleção permanente, o grupo viveu um encontro particularmente marcante: especialistas nas pedras bogomilas foram conversar após a apresentação compartilhando seus conhecimentos. O museu já havia promovido oficinas sobre os símbolos das pedras, um contexto que transformou a apresentação em um verdadeiro acontecimento.

Seguindo pela Europa

Após a turnê pelos Bálcãs, o programa seguiu para o mundo de língua alemã: Stuttgart, Holanda, Dornach (no Goetheanum) e um festival de euritmia na Itália. Para o público da Alemanha e da Holanda, a abertura do programa - uma espécie de “portal” que introduz os temas - foi apresentada na língua local. “Fui acolhido”, explica Bayboga. “As pessoas entenderam do que se tratava, e dessas apresentações surgiram movimentos, sentimentos e textos.”

Mais onze apresentações estão planejadas até o outono de 2026. A mensagem das pedras, diz Bayboga, é tão urgente hoje quanto na época dos bogomilos: “A força espiritual que repousa nos Stećci está esperando para ser ouvida.”

Chamada local

ABRINDO PORTAS

como o INSTITUTO MAHLE está democratizando a Antroposofia no Brasil

Entrevista com Manuela Lope

Gerente Executiva, INSTITUTO MAHLE

Manuela Lopes dirige o INSTITUTO MAHLE há seis anos. Seu caminho até essa posição esteve longe de ser convencional — de professora Waldorf a controller na Tecpar–Motorola CAR, passando por gestora de uma casa noturna, até chegar à liderança da organização parceira da Fundação MAHLE no Brasil.

Essa trajetória diversa mostrou-se extremamente valiosa para conduzir o INSTITUTO MAHLE por um período de crescimento e transformação notáveis.

Manuela, sua trajetória profissional é bastante incomum. Como alguém que já gerenciou um clube em São Paulo acabou à frente do INSTITUTO MAHLE?

É uma longa história! Desde a infância, sempre fui fascinada pela alma humana e pelo desenvolvimento do ser humano. Queria ser psicóloga e, ao estudar psicologia, descobri a antroposofia. Formei-me como professora Waldorf e lecionei por dez anos. Mas, quando me divorciei, enfrentei uma realidade dura — os salários de professores no Brasil são tão baixos que eu não conseguia pagar uma escola Waldorf para minhas próprias filhas. Então mudei completamente de rumo e fui para a área financeira, trabalhando no centro de reparos da Motorola.

Durante esses anos, eu administrei uma danceteria — era um espaço conhecido de música brasileira em São Paulo. Eu precisava sustentar meus filhos, então fiz o que era necessário. Mas nunca perdi minha conexão com a antroposofia; minhas filhas permaneceram em escolas Waldorf e eu continuei envolvida com o movimento.

Quando a Tecpar–Motorola CAR fechou no Brasil, percebi que poderia unir meus dois mundos. Comecei a ajudar escolas Waldorf com suas finanças. Foi assim que conheci Henner Ehringhaus, que trabalhava com o INSTITUTO MAHLE na época. Ele me convidou para integrar o comitê que avalia os projetos e, mais tarde, fui convidada a assumir a Direção Executiva do Instituto. Foi algo natural — eu podia conectar saúde, agricultura, educação e arte. Tanto a partir do meu conhecimento antroposófico quanto da minha experiência prática em finanças.

Manuela Lopes como professora Waldorf

Você está à frente do Instituto há seis anos. Como ele evoluiu nesse período?

A mudança mais significativa foi a clareza de propósito. Quando a Antroposofia chegou ao Brasil, ela veio através das elites — apenas pessoas ricas tinham acesso à pedagogia Waldorf, à alimentação biodinâmica e à medicina antroposófica. Acredito que o papel central do INSTITUTO MAHLE é abrir essas práticas para muito mais pessoas. Focamos em projetos que oferecem essas abordagens a quem não pode pagar por elas.

Isso representa algo bastante novo no Brasil. Hoje temos cerca de 250 escolas Waldorf no país, e 10% delas são escolas sociais — a maioria apoiada pelo INSTITUTO MAHLE. Trabalhamos com comunidades quilombolas — descendentes de pessoas escravizadas — introduzindo a agricultura biodinâmica em pequenas propriedades. Essas comunidades produzem uma parte dos alimentos orgânicos do Brasil.

Na área da saúde, alcançamos algo notável. O Brasil possui um sistema público de saúde único, o SUS, que oferece atendimento universal e gratuito. Durante muitos anos, a Medicina Antroposófica não era reconhecida dentro desse sistema. Hoje ela é reconhecida, e acredito que isso não teria acontecido sem o apoio do INSTITUTO MAHLE a projetos que demonstraram seu valor para pessoas em vulnerabilidade socioeconômica.

ISSO é uma grande conquista. Li que o número de projetos submetidos aumentou drasticamente - de 109 em 2023 para 188 em 2024. O que isso nos diz?

Reflete tanto o aumento do reconhecimento do nosso trabalho quanto, infelizmente, o aumento das necessidades. O Brasil enfrenta problemas estruturais profundos — enorme desigualdade social, racismo persistente. Metade da nossa população é negra, mas ainda enfrenta exclusão sistemática. O próprio movimento antroposófico sempre foi muito branco, muito marcado por uma cultura alemã. Só agora estamos começando a despertar para a necessidade de mudança.

O aumento das submissões também mostra que mais organizações estão descobrindo que o INSTITUTO MAHLE pode apoiá-las. Este foi o primeiro ano em que organizações sociais vinculadas a políticas públicas nos convidaram para participar de reuniões estratégicas. Estamos começando a ser reconhecidos, para além do movimento antroposófico, como um ator importante no campo mais amplo do desenvolvimento social.

Também fortalecemos nossos métodos de avaliação. Em 2024, desenvolvemos uma “Teoria de Mudança” e indicadores detalhados para medir o impacto dos projetos de forma mais sistemática. Isso nos ajuda a entender não apenas o que estamos financiando, mas como isso está, de fato, transformando a vida das pessoas e das comunidades.

Você pode dar exemplos de projetos que a impressionaram especialmente?

Vários vêm à mente, mas vou contar dois que realmente se destacam. O primeiro é a Associação Comunitária Murundu, uma escola em Palmeiras, uma pequena cidade da Chapada Diamantina, no estado da Bahia. É uma região remota e pobre. Uma educadora chamada Ana Claudia fundou ali uma escola Waldorf gratuita e, ano após ano, solicitava apoio ao INSTITUTO MAHLE. Eu disse a ela que precisava encontrar um caminho para se tornar autônoma — não poderíamos apoiar a escola indefinidamente.

Para mim, isso mostra a sabedoria de conectar diferentes áreas - agricultura e educação - para melhorar uma comunidade inteira. E mostra o que uma pessoa determinada, com uma ideia criativa, pode alcançar.

Um dia ela me ligou e disse: “Manuela, encontrei um caminho”. Alguém havia lhe doado uma máquina para fazer polpa de frutas, e ela teve uma inspiração. Caminhando pela cidade, percebeu que quase todas as casas tinham árvores frutíferas nos quintais — árvores nativas que simplesmente cresciam ali. As frutas caíam no chão, sem uso. Ela pensou: e se eu conectar esses quintais à associação de agricultura biodinâmica? E se criarmos uma agroindústria que processe essas frutas e as venda nos mercados orgânicos da Chapada Diamantina?

Ela fez isso, e parte da renda passou a ser destinada à escola. Introduziu a agricultura biodinâmica para mais de 70 mulheres. Elas começaram a produzir frutas orgânicas — hoje são certificadas como orgânicas e estão em transição para o biodinâmico. Mas Ana não ajudou apenas a escola. Ela transformou a cidade inteira. O prefeito viu o que estava acontecendo e decidiu apoiar a escola, impressionado com a mudança em todos os níveis.

Associação Comunitária Murundu em Palmeiras

E o segundo exemplo?

Esse vem da área da saúde. Nileni é médica no Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro — o principal instituto público do Brasil para o controle do câncer. Ela trabalhava na oncologia pediátrica quando descobriu a Antroposofia por meio da educação Waldorf. Pediu à sua diretora, Sima, permissão para utilizar alguns medicamentos antroposóficos com crianças em cuidados paliativos.

O notável é que Sima concordou. É muito incomum, no sistema público de saúde, permitir que alguém experimente algo completamente novo. Nileni começou a tratar essas crianças, e os resultados não estavam ligados à cura em si — eram casos paliativos —, mas à transformação da relação entre as crianças e suas famílias, e à forma como as famílias conseguiam enfrentar a morte da criança.

Os medicamentos antroposóficos abriram a dimensão espiritual dessas pessoas. O hospital reconheceu isso não por um poder de cura no sentido convencional, mas pela cura das relações, pela mudança na forma de olhar para a morte. Esse foi o ponto de virada que convenceu a diretora do hospital a permitir a continuidade e a expansão do trabalho.

Visitamos o local em 2025 com a Dra. Marion Debus, chefe da Seção Médica do Goetheanum, e ela ficou impressionada com o trabalho realizado. Agora estamos apoiando um projeto para expandir de forma consistente a área de Medicina Antroposófica dentro do hospital. Às vezes, uma única pessoa, em uma grande instituição, tem a coragem de tentar algo novo e consegue transformar um departamento inteiro.

No seu entendimento, onde estão os principaia desafios nessa Área?

Precisamos de muito mais pesquisa acadêmica em Medicina Antroposófica no Brasil. Estamos discutindo isso intensamente com Jürgen Schweiß-Ertl, da Fundação MAHLE. O problema para obter aceitação plena em qualquer sistema de saúde é comprovar a eficácia segundo padrões convencionais de pesquisa. Acreditamos que a Medicina Antroposófica atua em um nível conceitual mais elevado, mas isso não é suficiente. Precisamos de pesquisas que atendam aos padrões médicos convencionais para realmente nos integrar ao sistema público de saúde.

Jürgen Schweiß-Ertl, da Fundação MAHLE, e comitê do INSTITUTO MAHLE em visita ao INCA

A formação de novos médicos é outro desafio relevante. Os cursos de formação estão, na verdade, diminuindo — um número menor de médicos novos estão estudando Medicina Antroposófica e isso me preocupa. Já na educação, estamos em uma situação melhor., apoiamos de 100 a 150 professores por ano para concluírem sua formação.

A agricultura é diferente novamente. Ela não é percebida como um campo social da mesma forma que a saúde e a educação, embora alimente as pessoas. Leva tempo para que as mentalidades mudem, para que se compreenda sua importância no contexto das mudanças climáticas e da segurança alimentar.

Olhando para o futuro, onde você vê o INSTITUTO MAHLE em cinco anos?

Espero que continuemos esse trabalho de ampliar o acesso. Estamos falando de 99% da população brasileira que antes não tinha acesso às práticas antroposóficas. Imagine — no início, alcançávamos talvez 1% da população. Agora isso está se espalhando.

A própria Sociedade Antroposófica está mudando. No ano passado, pela primeira vez, celebrou o Dia da Consciência Negra — um feriado nacional que a comunidade antroposófica nunca havia celebrado antes. Eles estão começando a reconhecer que precisam se expandir para além das antigas famílias antroposóficas alemãs.

Acredito que a Antroposofia pode ajudar as pessoas a enxergarem cada ser humano como alguém em desenvolvimento, oferecendo acesso ao que há de melhor para o maior número possível de pessoas. Não é fácil, mas essa é a missão do INSTITUTO MAHLE. Não estamos sozinhos no campo da Antroposofia no Brasil, além disso outras organizações não antroposóficas estão começando a nos reconhecer como parceiros importantes para o desenvolvimento social e econômico.

Acho que esse é o nosso futuro: continuar apoiando projetos que realmente transformam comunidades, demonstrar que as abordagens antroposóficas funcionam para todos, não apenas para os privilegiados, e construir pontes entre o movimento antroposófico e o universo mais amplo do desenvolvimento social no Brasil. Estamos apenas no começo dessa jornada.

A entrevista foi conduzida por Antal Adam.

Fundação MAHLE

Por GenZ, para GenZ: Os ÜBERMORGENMACHER

Como alcançar uma geração que navega entre reels do TikTok e a ansiedade em relação ao futuro? A Fundação MAHLE encontrou, com os ÜBERMORGENMACHER, uma resposta tão simples quanto eficaz: deixar que os próprios jovens falem por si.

Novas perspectivas sobre grandes questões

Durante dois anos, uma equipe editorial formada por estudantes produziu conteúdos por e para a Geração Z — no Instagram, YouTube e TikTok. O leque de temas foi tão amplo quanto os interesses do próprio público-alvo: de finanças sustentáveis e medicina complementar até resiliência, feminismo, inclusão e os desafios muito concretos enfrentados por jovens adultos — quartos em repúblicas com aluguéis inacessíveis, aposentadoria, inteligência artificial e a pergunta sobre se o emprego dos sonhos de hoje ainda existirá amanhã.

O formato manteve-se sempre próximo da realidade vivida pelo seu público: nada de tom moralista, mas sim ideias concretas e exemplos inspiradores. Nos videocasts, especialistas tiveram voz — como Nadine Raißle, do GLS Bank, que conversou com a equipe editorial de maneira acessível e instigante sobre o dinheiro como instrumento de transformação social. A equipe também acompanhou as séries de palestras da Fundação MAHLE no Altes Schloss, em Stuttgart, traduzindo esses impulsos para a linguagem das redes sociais.

Provocações para pensar, não lições de moral

Seja filosofia no cotidiano, política educacional às vésperas das eleições federais ou a questão sobre o que o estoicismo tem a ver com uma vida plena: os ÜBERMORGENMACHER ofereceram conteúdos que estimulavam a reflexão — sempre com o olhar voltado para um futuro mais justo e empático. Após duas temporadas bem-sucedidas, o projeto encontra-se agora em pausa. O que permanece é uma plataforma que demonstrou de forma convincente que a Geração Z não se interessa apenas pelo efêmero — mas também, e muito, pelo “depois de amanhã”.

YouTube, Instagram, Tiktok: @uebermorgenmacher

Fundação MAHLE

Linhas de Vida em Tempos de Transformação

Uma série de eventos da Fundação MAHLE

Com a continuidade de sua série de palestras “Linhas de Vida em Tempos de Transformação”, realizada no Antigo Castelo, em Stuttgart, a Fundação MAHLE amplia novamente o olhar para os desafios sociais urgentes do presente e do futuro, abordando questões atuais que inquietam as pessoas diante das profundas transformações em curso no mundo.

São temas que mobilizam a sociedade e ajudam a enfrentar desafios centrais na construção do futuro: ser humano — e permanecer humano — em tempos difíceis. As palestras são realizadas sob o lema: “O Legado da Europa – Um Balanço de uma Comunidade de Valores”.

Em um mundo marcado por turbulências e pela ameaça de uma divergência global de valores, buscamos refletir sobre fundamentos comuns: liberdade, direitos humanos, Iluminismo, tolerância e humanidade, ética cristã e democracia. Além disso, a série aborda a emancipação do ser humano durante o Renascimento e a Reforma, bem como ao longo do Iluminismo.

As palestras são gravadas e podem ser encontradas em nossa mediateca:

A equipa da Fundação MAHLE









O portal de projetos da Fundação MAHLE está online!

Quem deseja obter apoio para um projeto precisa, antes de tudo, de boas ideias – e, até agora, também era preciso ter paciência para colar selos e enviar documentos pelo correio. Mas isso agora é coisa do passado: a Fundação MAHLE lançou seu novo portal online de submissão de projetos, e as solicitações de apoio podem agora ser enviadas inteiramente de forma digital. Sem pilhas de papel, sem idas ao correio, sem esperar pela devolução de documentos.

Passo a passo até a submissão do projeto

Após um cadastro único, os solicitantes são conduzidos passo a passo pelo formulário online. Caso seja necessário interromper o preenchimento, o pedido pode ser salvo a qualquer momento e retomado posteriormente. Não é necessário concluir tudo de uma só vez. Assim que todos os campos obrigatórios estiverem preenchidos e a proposta estiver pronta, basta clicar em “Enviar”, e a Fundação MAHLE dará continuidade ao processo, preparando a proposta para avaliação pelo comitê responsável. Após a submissão, o pedido permanece disponível no portal, permitindo que os solicitantes acompanhem a qualquer momento o histórico de suas solicitações.

Olhando para o futuro

O novo portal é apenas o começo. No futuro, ele deverá evoluir para um portal completo de gestão de apoios, que permitirá acompanhar digitalmente todas as etapas administrativas – desde a submissão do projeto até o seu encerramento. Com isso, a Fundação MAHLE reforça seu compromisso com processos modernos e eficientes, em benefício dos projetos apoiados e das organizações parceiras.

Observação: Apesar da preparação cuidadosa, é possível que um sistema recém-lançado apresente pequenos ajustes iniciais. A equipe da Fundação MAHLE está sempre à disposição para ajudar em caso de dúvidas, esclarecimentos ou dificuldades técnicas.

A Fundação MAHLE em Números



A: Estatísticas

Projetos Aprovados
121
Projetos avaliados pelos comitês da Fundação
184
Solicitações de financiamento (verbalmente e por escrit)
aprox. 550



Visão Geral dos Projetos Financiados em 2025

Área principal de financiamento: Saúde

Filderklinik gGmbH
1.500.000,00 €
Associação Filderklinik e. V.
2.500.000,00 €
Outros Financiamentos
100.000,00 €
Total
4.100.000,00 €



Outras Áreas de Financiamento

Assistência à Juventude
35.000,00 €
Educação, Formação Nacional e Profissional
2.125.979,00 €
Ciência e Pesquisa
744.000,00 €
INSTITUTO MAHLE, Brasil
1.397.831,00€
Total
4.302.810,00 €


Total geral
8.402.810,00 €





Relatório de Gestão 2025

Para a Fundação MAHLE, 2025 foi mais um ano intenso de trabalho tanto em relação aos projetos quanto de sua própria organização.

Mudança de Forma Jurídica e Novos Estatutos Sociais

Uma das prioridades centrais do ano foi a preparação para a alteração da forma jurídica da Fundação. Essa nova forma jurídica foi cuidada para evitar os riscos que envolvem uma sociedade de responsabilidade limitada (Stiftungs-GmbH), riscos que, em especial, aplicam-se pessoalmente aos acionistas. O foco aqui foi a criação de uma fundação de direito civil e a transferência das ações da MAHLE-STIFTUNG GmbH na MAHLE GmbH para essa nova Fundação. A respectiva resolução foi aprovada em 2025 pelos acionistas da MAHLE Stiftung GmbH.

Isso exigiu uma revisão dos estatutos sociais existentes para alinhá-los com a estrutura jurídica de uma fundação de direito civil, os quais permaneciam praticamente inalterados desde a sua criação em 1964; paralelamente, os arranjos internos de compliance da Fundação tiveram que ser atualizados. Ambas as frentes avançaram, embora ainda não estejam concluídas.

A alteração na forma jurídica também traz implicações para a MAHLE GmbH, da qual a MAHLE-STIFTUNG detém 99,9%, e para a MABEG e. V., a segunda acionista da MAHLE GmbH, que detém uma participação de 0,1%, mas todos os direitos de voto. A coordenação estreita com ambas as partes foi essencial, e somos gratos pelo envolvimento construtivo e aberto delas nesse processo. As consequências, particularmente para a MAHLE GmbH, estão longe de ser triviais, e, por isso, a Fundação acompanhará e apoiará ativamente o processo de esclarecimento em todas as etapas. Nosso objetivo é concluir totalmente essa mudança até o final de 2027.

Trabalho de Financiamento sob Pressão Crescente

Um dividendo bem-vindo de € 8 milhões para o exercício financeiro de 2025 permitiu continuarmos as nossas atividades de financiamento em um bom patamar. Dito isso, enfrentamos, assim como a sociedade em geral, desafios consideráveis: as crises estão se multiplicando na Alemanha e no mundo e, com elas, as expectativas colocadas sobre as instituições financiadoras.

O número de solicitações foi praticamente igual à do ano anterior, mas a realidade por trás dos números mudou: menos projetos foram apoiados no geral, enquanto os valores concedidos foram, em média, mais altos - um sinal de que as instituições parceiras se encontram em circunstâncias cada vez mais difíceis e necessitam de assistência mais substancial. A Fundação MAHLE não pode, e não poderá atender a todos os pedidos que lhe são feitos. Essa limitação continuará, com toda a probabilidade, a ser uma característica marcante nos próximos anos.

O Hospital Filderklinik: Responsabilidade e Planos de Reconstrução

A Fundação MAHLE detém uma participação de 70% na Filderklinik gGmbH, em Filderstadt e, com ela, uma parcela considerável de responsabilidade pelo futuro do hospital. O setor hospitalar alemão está em crise estrutural: quase nenhuma instituição opera no azul e os prejuízos se acumulam em todo o setor. Os hospitais públicos podem absorver os déficits, pelo menos em parte, por meio de receitas fiscais; já hospitais independentes sem fins lucrativos, como o Filderklinik, não têm esse recurso. Nos últimos anos, a Fundação MAHLE apoiou a clínica com níveis de financiamento acima da média.

A essa situação urgente soma-se uma decisão estratégica de grande impacto: após cinquenta anos de funcionamento, o Filderklinik precisa de uma renovação completa. A avaliação das opções - reforma estrutural ou uma nova construção - pendeu a favor da última, por ser o caminho economicamente mais viável para dar continuidade ao trabalho da clínica no mais alto nível.

A História da Fundação: Mais do que Filantropia

Nos últimos anos, o interesse pela história da Fundação MAHLE cresceu acentuadamente, e com razão. A motivação dos fundadores, Hermann e Dr. Ernst Mahle, ia muito além da simples promoção de causas beneficentes: a ambição deles era criar um modelo que demonstrasse como a propriedade de uma empresa pode ser exercida de forma responsável.

Os registros e documentos relativos à criação da Fundação foram gradualmente reunidos e redescobertos, um verdadeiro tesouro que merece ser pesquisado e estudado minuciosamente. Um projeto de pesquisa dedicado a isso está sendo planejado no momento.

Digitalização, o Festival Feinstoff e o Brasil

A digitalização dos processos internos continua avançando de forma constante graças, em grande parte, aos esforços dedicados da nossa equipe, a quem expressamos os nossos sinceros agradecimentos. Os candidatos que pleiteiam apoio a seus projetos já estão se beneficiando disso: as inscrições online agora são possíveis e se tornarão uma prática padrão no futuro. O escritório praticamente “sem papel” continua sendo uma meta declarada.

Um destaque especial do ano foi o Festival Feinstoff, realizado para marcar o sexagésimo aniversário de atividades de fomento da Fundação. Ao longo de vários dias, cerca de 2.000 visitantes vivenciaram uma programação rica e variada dedicada ao tema "anjos" - encenada na igreja de St. Maria, no coração de Stuttgart. Uma gravação em vídeo deste evento está disponível em nossa biblioteca de mídia.

Também estamos muito felizes com o aprofundamento da relação com a nossa organização parceira, o INSTITUTO MAHLE em São Paulo, por intermédio de quem e em conjunto, estruturamos nossas atividades de financiamento no Brasil. Essa parceria tornou-se tão próxima que o presente relatório anual foi compilado em parceria pela primeira vez; um formato que pretendemos manter, pois torna visível, como nunca antes, toda a amplitude do trabalho da Fundação MAHLE.

Nossa série de palestras realizada no Altes Schloss Stuttgart atraiu mais uma vez um público entusiasmado. Quem perdeu algum dos eventos pode assisti-los em nossa biblioteca de mídia - os palestrantes são, sem exceção, vozes de destaque em seus respectivos campos de conhecimento.

Os Números em Resumo

Como detentora de uma participação de 99,9% na MAHLE GmbH, a MAHLE-STIFTUNG GmbH é a principal acionista da MAHLE GmbH e, por extensão, do Grupo MAHLE. O valor contábil dessa participação é de € 273.549.354,72. Os direitos de voto são exercidos de forma fiduciário pela MABEG - Verein zur Förderung und Beratung der Mahle-Gruppe e. V., segunda acionista da MAHLE GmbH.

Para o exercício financeiro de 2025, a MAHLE-STIFTUNG GmbH recebeu um dividendo de € 8.000.000,00 da MAHLE GmbH. Os juros e receitas semelhantes provenientes do investimento de curto prazo de fundos vinculados totalizaram € 61.589,88. A Software AG-Stiftung, de Darmstadt, forneceu uma doação de € 575.000,00 para projetos sociais no Brasil, a qual foi repassada integralmente ao INSTITUTO MAHLE.

Os leitores podem se surpreender com os lucros retidos reportados, que chegam à casa dos milhões. Esse valor elevado é resultado de uma mudança no procedimento de criação ou ajuste de provisões vinculadas a projetos. Em anos anteriores realizávamos esse processo no início do ano referente ao ano anterior, mas desta vez fizemos diferente. A partir de agora, devemos reservar as provisões para projetos na primeira assembleia de acionistas da MAHLE-Stiftung GmbH no ano seguinte. Isso significa que os lucros retidos significativos ao final de 2025 serão destinados às reservas necessárias para projetos em abril de 2026, por deliberação da assembleia de acionistas.

No total, foram concedidos ou deliberados subsídios e compromissos para projetos sociais no valor de € 8.402.810,00 em 2025. Por tudo isso, expressamos nossos sinceros agradecimentos aos colaboradores e à administração do Grupo MAHLE - o esforço deles é a base de tudo o que fazemos.







INSTITUTO MAHLE

Team INSTITUTO MAHLE

O INSTITUTO MAHLE em números

Ao longo dos 18 anos de existência do INSTITUTO MAHLE foram assessoradas, apoiadas e acompanhadas 1.195 iniciativas, projetos e programas de 250 instituições sem fi ns lucrativos, em 160 cidades de 21 estados brasileiros.

Número de projetos apoiados por tipo de atividade

O apoio a projetos do INSTITUTO MAHLE é orientado por um propósito claro: tornar as práticas antroposóficas acessíveis a quem, de outra forma, não poderia usufruir delas. Onde essas abordagens eram antes privilégio de poucos, o INSTITUTO MAHLE atua para garantir que alcancem cada vez mais pessoas.

Relatório sobre a evolução dos negócios do INSTITUTO MAHLE em 2025

O INSTITUTO MAHLE, definiu como meta para 2025 intensificar seu apoio às pessoas socialmente mais vulneráveis, ou seja, aquelas que além de muitas privações não teriam condições de pagar por um atendimento médico antroposófico, cultivar alimentos biodinâmicos ou então estudar em uma escola Waldorf. Olhando retrospectivamente a partir dos dados que foram coletados dos projetos apoiados em 2025, essa meta foi realizada com grande êxito.

Esse direcionamento de apoio é particularmente importante no contexto brasileiro tendo em vista a enorme desigualdade social que há no país, criando um abismo entre aqueles que tem e os que não tem acesso a diversos itens básicos para a vida humana.

A situação vivida pela população brasileira atualmente é fruto de um sistema colonialista que explorou durante grande parte da história do país os povos indígenas e pessoas vindas de países africanos para comporem a mão de obra escrava. A consciência sobre a história e o compromisso por um mundo mais justo, igualitário e humano tem feito a direção do Instituto colocar como prioritário a democratização do acesso à Antroposofia no Brasil. Em 2025 podemos ver refletida essa política: 85% das pessoas atendidas pertencem a grupos em situação de vulnerabilidade social, predominantemente (64%) composta de pessoas negras e indígenas.

Este dado se confirma quando é analisada a renda familiar – a maioria recebe até 3 salários mínimos, o equivalente a R$ 4.500 (valor bem abaixo das necessidades de uma família para seu sustento).

Outra análise pertinente é o grande número de projetos aprovados na área da educação (36) e as atividades propostas por eles (17 voltados à formação profissional, 18 à atividades pedagógicas/artísticas e 1 no setor de pesquisa). Esse fato mostra a força da Pedagogia Waldorf no Brasil e a consolidação desta abordagem educacional que conta atualmente com 250 instituições distribuídas em 20 estados brasileiros.



Ficha Técnica



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